kintsukuroi ou porque o cantinho do pensamento é uma ideia meio besta se você está tentando criar um ser-humano decente e responsável

kintsukuroi é a arte japonesa de remendar peças quebradas de cerâmica com resina misturada a pó de ouro, prata ou platina, deixando que a reparação passe a fazer parte do objeto. simbolicamente, o método pressupõe que a história do objeto seja respeitada e assegurada, ainda que esta inclua ocasiões em que a peça se reduziu a pedaços. dando aquela humanizada na coisa, kintsukuroi significa abraçar as cicatrizes no corpo, na alma, no coração e seguir em frente.

gosto da ideia de reparar, de levantar da cadeira e resolver o problema, chegar mais, chegar junto, cuidar da ferida causada, do copo quebrado, da tinta derramada. gosto, ainda mais, da ideia de cuidar da pessoa que foi machucada. é bonito, manda um recado mais pertinente e reconfortante que a simples consciência de que errou, coloca os sentimentos e as mágoas no seu devido lugar. se existem infinitas maneiras de dizer “eu me preocupo com você”, por meio de ações é que a mensagem é melhor passada: exatamente porque não é algo que dependa apenas do par boca-ouvido, a ação de reparar um erro envolve o corpo inteiro. questão de superfície de contato.

em meio à ~correria do dia-a-dia~, confesso que fracasso vez ou outra, mas procuro sempre fazer com que as crianças reparem seus erros, sejam eles um copo de suco derrubado no chão ou um amigo machucado. é difícil para elas compreender que não se trata exatamente de uma punição, mas sim de um chamado à responsabilidade sobre aquilo que acabou de acontecer. ainda que sem intenção de fazer uma nhaca de suco de uva no chão, fez-se a pocinha. ainda que sem intenção de esbarrar e derrubar o colega, ele tá ali com dor e chorando. ainda que sem a intenção de quebrar, um vaso de cerâmica se encontra espatifado no chão.

quando há intenção, porém, os nervos ficam um tanto mais aflorados e outras questões têm que ser convocadas em paralelo à necessidade de reparação: limites sociais, autocontrole emocional, o exercício da tolerância e da empatia, etc. antes da reparação, é obrigatório que a criança entenda as razões pelas quais seu comportamento não foi/é aceitável. lição dada, é hora de resolver os aspectos mais práticos do problema, recolher os cacos, fazer a mistura da resina e do pó de ouro e dar início aos trabalhos.

hoje, enquanto tirávamos a areia dos tênis depois de sair do parque, a laura arrancou o galhinho de uma planta que fica ali ao lado. marta, ao vê-la fazendo isso, não teve dúvidas e foi repreendê-la, porém, entre as centenas de atitudes que ela poderia ter tomado naquele momento, marta resolveu que beliscar a laura seria a opção mais acertada. laura, que não é de ficar calada, retrucou na mesma moeda e beliscou a marta. quando me aproximei para entender exatamente o que estava acontecendo, o cenário pintado era o de duas grandes amigas machucadas chorando de dor e mágoa.

conversei durante alguns minutos com as duas sobre as ações [“marta, você poderia ter falado para a laura que é errado arrancar o galho de uma planta”] e reações [“laura, eu sei que você não gostou que a marta te machucou, mas machucá-la também não era uma opção, né, agora ela também está triste com você.”] e fomos pegar uma pomada para que uma cuidasse da outra; nisso, elas já estavam andando juntas novamente [ah, sim, tem isso também: não adianta ficar muito tempo na posição de juiz com criança porque, antes que você perceba, elas já fizeram as pazes, estão se amando e você, adulto, está lá, com cara de boboca justiceiro tentando dar uma sentença para um crime que já prescreveu.], conversando e prontas para seguir em frente. uma passou hirudoid na outra rindo e pronto, vida nova.

se eu tivesse afastado a marta da laura, o problema não teria sido resolvido. o afastamento é a não-resolução do problema exatamente porque retira da criança seu direito de dar conta de reparar as besteiras que faz. direito? é, direito. toda criança [e todo adulto] tem o direito de saber que consegue re-fazer, re-criar, re-parar. é importante para sua auto-estima, independência, saúde emocional, para sua dignidade que lhe seja dada a chance de resolver um mal que ela mesma causou, seja intencionalmente ou não.

creio que este pequeno episódio não se torne algo muito marcante na amizade da marta e da laura nem mesmo nas vidas das duas. ainda assim, para mim é importante que as crianças aprendam a lidar com os próprios erros, com a autofrustração e a criar maneiras de fazer o outro e elas mesmas se sentirem um pouco melhor depois que a tempestade passa. um dia elas farão grandes besteiras na vida, é fato. que elas encontrem uma maneira de reparar o vaso, o coração, a conta bancária, o carro ou o que seja que elas venham a despedaçar, é meu desejo. kintsukuroi.

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “kintsukuroi ou porque o cantinho do pensamento é uma ideia meio besta se você está tentando criar um ser-humano decente e responsável

  1. Adorei o texto! Já havia lido em outro site sobre o cantinho do pensamento ser uma porcaria (e é mesmo, porque acaba não ensinando nada).
    Nada como o diálogo e ensinar aos filhos, com empatia, como conviver. Afinal nós, quando adultos, não vamos para o cantinho do pensamento quando erramos, não é mesmo?

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