o inferno são os outros

dia dos professores chegando logo após o dia das crianças, uma semana de chuva, suor e cerveja  uma rodada de suco pra galera nas escolas e muitos, muuuuitos presentes rolando de lá pra cá. sim, como se não bastasse o privilégio de trabalhar com a categoria de pessoas mais legal do ciclo da vida, professoras de educação infantil detêm grande parcela da tradição de serem presenteadas no dia dos professores. depois disso, é só ladeira abaixo, eu sei, e sinto muito pelos meus colegas de profissão dos ensino fundamental e médio. dez pontos para a massinha, zero para o livro didático. mwuah.

hoje a luciana chegou na escola toda feliz com uma sacola de presente para mim. como ela estava um pouco atrasada e as demais crianças estavam na aula de música, eu a recebi no portão sozinha e ela não reparou que, ao meu lado no banco, havia outros três pacotes de presentes. “teacher, teacher, eu trouxe um presente pra você!”, ela exclamou com um sorriso de orelha a orelha. imediatamente me agachei para lhe dar um abraço, um beijo e agradecer pelo presente, independente do que fosse, é claro [é um porta-joias lindo, aliás]. neste momento, enquanto nos abraçávamos, luciana soltou a fatídica pergunta: “eu fui a primeira a te dar presente, né teacher?”.

temos, eu e a luciana, uma relação bastante próxima por conta do combo temperamento similar + admiração mútua com suprimento de carência grande por mais um real. vira e mexe ela pula no meu colo, vive perto de mim e me requisita para mostrar seus brinquedos, atividades, pinturas e, até mesmo, para pedir minha opinião em meio às discussões e conversas que tem com outras crianças. eu a acho uma das pessoas mais bonitas que eu já vi na vida, das mais justas, humanas e leais. luciana é séria e, dizem por aí, eu também sou. por conta disso tudo, não me ocorreu mentir para agradá-la, até porque ela logo veria as demais sacolas e eu correria o risco de magoar ainda mais a minha pequena susan sontag. olhando no fundo da imensidão dos seus olhos, com certo pesar e tomando cuidado para soar o mais natural possível, respondi: – não, lu. na verdade, não. eu já ganhei outros presentes. 

BOOM. a decepção em seus olhos foi insuportavelmente visível. na hora pensei que devia ter mentido ou não talvez será que eu devia ter falado outra coisa ai meu deus júlia você não tem condições de cuidar de crianças olha a carinha dela o que foi que fiiiiiiiiiz?! peguei-a pela mão e expliquei que sim, já tinha ganho outros presentes mas que isso não importava, que eu a amava muito e que tinha ficado muito feliz de ter ganho um presente dela. quietinha e meio jururu, ela me ouviu e, sem muita alternativa, largou sua mochila no banco e foi encontrar os amigos na aula de música. quando subimos para a sala de aula, sentei na roda com todos eles e abri cada presente. a luciana estava sentada ao meu lado e prestava muita atenção às minhas reações, como se quisesse medir meu entusiasmo e garantir que, ao abrir seu presente, ele fosse maior que os demais.

fosse a luciana outra criança, eu poderia dizer que querer ser a primeira e prestar atenção ao meu entusiasmo seriam sintomas de uma competitividade arraigada. mas a luciana não é competitiva, não faz questão de ser a primeira nunca, não sofre quando perde, não se exalta quando ganha. hoje, a luciana só queria ser especial, única e insubstituível através de uma sacola de presente no dia dos professores, como se tê-la na minha vida já não fosse presente suficiente. ela não sabe disso, é claro, mas ela é. é claro que eu entendo a luciana. é difícil, exige alta dose de maturidade e serenidade aceitar que aquele que queremos agradar, a quem queremos ser insubstituíveis, especiais e únicos, pode ser agradado por terceiros, ainda que não necessariamente da mesma maneira. talvez porque nossa unicidade e especialidade residam exatamente em elementos que só o outro é capaz de enxergar, quando nos propomos a ser únicos e especiais não estamos nada mais do que repetindo certas fórmulas. hoje a luciana viveu a experiência de querer ser a primeira e não foi. quantas vezes quisemos ser os primeiros na vida do outro e não fomos? quantas vezes quisemos ser especiais ou mais-especiais-que-todos-os-especiais-do-mundo e falhamos miseravelmente? quantas vezes quisemos ser os melhores – ou tínhamos certeza de que seríamos – e a realidade veio mostrar que talvez nós fôssemos mesmo, mas não aquele dia, aquela hora, naquele lugar?

não é simples nem gostoso se misturar à multidão. aceitar que, entre sete bilhões ou entre qualquer outro universo numérico, somos mais um. não é, definitivamente, um processo tranquilo compreender que nossa unicidade e especialidade resida apenas no outro. oh deus, acreditar quando o outro fala que somos, então, pode ser um inferno. hoje a luciana chegou com um presente para mim querendo ser a primeira e não foi e eu tive contar para ela que não é um presente, mas sim ela inteira que a faz única e especial para mim. sabe-se lá o que ela vê em mim que fez com que ela quisesse me agradar da forma que tentou. talvez porque ela saiba que eu sei que eu tenho o trabalho mais legal do mundo. a quem caiba, feliz dia dos professores. aos demais, sejam professores: é o trabalho mais legal do mundo. ❤

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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