adaptação

[existe um punhado de motivos pelos quais há muito eu não escrevo aqui, sobre os quais não vale a pena nem a energia falar. também aqui não é o lugar apropriado para. contrariando todas as expectativas, 2015 chegou e, já é, um grande ano. que permaneça é meu maior desejo].

eu entrei em 2006 na faculdade de letras. minha primeira aula do primeiro dia de aula do primeiro ano de curso foi ‘introdução aos estudos clássicos I’. quando achei a sala correta e adentrei seus grossos portões [mentira, era uma porta normal mesmo, mas o climão opressor de hahaha-entrou-na-usp-né-miga-agora-guenta-que-mal-começou me faz lembrar daquela porta como um grande e obscuro portal], tinha um poema jâmbico escrito em grego na lousa. sentei na parte de trás da sala fundo o suficiente para parecer que eu era um ser dedicado à poesia grega e pertencia à turma do fundão ao mesmo tempo, na esperança que alguém me achasse legal, descolada & inteligentona, também conhecida como ‘a eterna busca’.

o professor entrou, deu ‘bom dia’, se sentou e começou a falar. do que eu lembro daquela aula hoje, nove anos depois? HOHOHOHO que eu achei aquilo tão insuportável que, salvo engano, acho que dei uma cochiladinha. minha aula seguinte, de ‘introdução aos estudos linguísticos I’, também me pareceu um tanto enfadonha. depois eu desci até o CA para tirar xerox dos textos que eu tinha que ler. depois eu vi a fila da xerox. depois eu vi as pessoas se estapeando e berrando ‘pasta 107!!!!!!’, ‘cê tem o texto do calvino??????!!!!1111’, ‘mas é pra ler tudo isso pra quarta???!!!’ num frenesi de meio-dia de um dia de verão que, olha, nem nos meus sonhos mais loucos eu gostaria de participar. dei meia volta e fui embora. sem os textos [padrão de comportamento que, depois de muita lapada da vida acadêmica, pessoal e profissional, eu hoje consigo driblar].

demorou um ano [repito: um loooongo ano] para me adaptar ao ambiente universitário. salvo a carol e a outra carol, eu não tinha amigos na faculdade. lia textos teóricos e, salvo os de teoria literária, entendia muito pouco sobre o que acontecia naquele reino. cabulava aula para ler outras coisas, peguei DP [de ‘introdução aos estudos clássicos I’, óbvio, meu destino havia sido traçado naquela primeira hora de curso], tentei entender linguística, terminei o ano com uma ponderada ruim, ranqueei e só peguei minha terceira opção de língua estrangeira. fuén.

o segundo ano, ao contrário do primeiro, foi um oásis. no fim das contas, eu gostei da minha língua estrangeira e fui até o fim, mesmo que o fim da minha vida na graduação já indicasse que eu nunca ia usar il mio italiano para nada que não fosse ler pavese e moravia no original e dar uma inflada no meu capital paqueirístico [essa palavra existe?]. à essa altura, eu já fazia iniciação científica na faculdade de educação e lá permaneço como mestranda. fiz amigos, muitos, li tudo que tinha que ler entendendo os textos, o que era o mais legal, fui nas festas, fui pra aula de ressaca na sexta-feira por motivos de quinta&breja.

desde o dia 2, estamos em período de adaptação na escola. para os leigos, o período de adaptação consiste em uma ou duas professoras fazerem das tripas, coração para que seus alunos aceitem que irão acordar cedão, vestir um uniforme de gosto duvidoso, conviver com algumas crianças que eles detestam até o fim do ano [subtraída a informação de que essa rotina se estenderá pelos próximos 15 ou 16 anos, graduação e ambiente de trabalho exclusos] e a-ma-rem essa rotina. parece difícil pra você? então, imagina para as professoras!

como eu dou aula para as crianças de quatro anos – que a esta altura raramente precisam ser ‘adaptadas’ – meu sofrimento durante este período é mais passivo do que ativo. não faço ninguém sofrer e ninguém faz o mesmo comigo, eu só escuto o sofrimento alheio [leia-se: choro] a manhã toda. ainda assim, a ‘adaptação’ é inevitável. eu e as crianças não nos conhecemos, não sabemos de que buraco viemos nem para onde vamos. eles precisam entender as novas regras, assim como eu preciso entender os novos limites. eles precisam, no mínimo, me respeitar [não faço questão que me amem porque, né, gregos, troianos etc e tal] e o contrário também é verdadeiro. eles passam a fazer mais coisas sozinhos ao longo do dia e sou eu que preciso lhes ensinar, repetidas vezes, a coreografia de sua nova vida escolar.

assim como quando entrei na faculdade já sabia como a coisa mais ou menos funcionava mas, ainda assim, demorou um ano para que eu me adaptasse, meus alunos também sabem o que é escola, pra que serve, do que se alimenta, mas, muito mais espertos, ligeiros e vida-leve do que eu aos dezoito, entendem rapidinho o que é pra fazer. o ano mal começou e os acordes de sintonia já começaram. eles são muito pequenininhos e espertos, bons amigos uns dos outros e bacanas comigo. não sabem, porém, que a ‘adaptação’ jamais tem fim porque é assim que a vida é e teria sido bom, durante os meus anos escolares, que eu tivesse aprendido mais sobre jogo de cintura e sobrevivência no meio social do que sobre complexo de golgi [quem lembra, curte, quem ainda sabe explicar, compartilha!]. fica registrado meu desejo que os meus alunos e ~all the children in the world~ aprendam a sobreviver da forma mais leve e colorida possível.

feliz 2015 para nós com menos água mas com muito mais afeto, paciência e alteridade. segue o baile. 😉

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

primeiras estórias

há exatamente um ano, o post rituaizinhos foi escrito e o filosofinhas começou a passear por aí. como eu já expliquei aqui, o blog é uma expansão de histórias de momentos que eu passava com os meus alunos que, de início, eu contava no facebook para os meus amigos. a coisa começou a crescer e as histórias passaram, naturalmente, a exigir uma morada só delas.

na noite em que o ‘rituaizinhos’ foi escrito, eu prometi para mim mesma que, quando o blog fizesse um ano, eu recuperaria os primeiros posts de facebook que escrevi. estes posts se referiam exclusivamente à beatriz, que era minha aluna ano passado e segue sendo a criança mais incrível e engraçada do mundo. ela já apareceu por aqui váááárias vezes, [como aqui e aqui] . se você gosta do filosofinhas, agradeça à beatriz.

então, vamos aos primeiros posts sobre a bia. sintam que são posts absolutamente descritivos e que eu não comentava nada sobre as situações, simplesmente deixava o causo lá, endereçado aos bons entendedores:

**

– pra onde você vai, teacher?

– pra colômbia.

– é perto do brasil?

– é, é pertinho, ó [apontando para a colômbia no globo].

– ahhhhh, é pertinho mesmo! eu nem vou precisar chorar de saudade!

**

eu: então vocês acham que os índios não vão pra escola?
eles: NÃO!
eu: daí os índios não têm professores também?
eles: NÃO!
eu: e como vocês acham que eles aprendem?
bia: os animais ensinam as coisas pra eles! ❤ ❤ ❤

**

no lanche, todos conversando sobre o tema “o pai do meu amigo chama ____”. a bia conta que o pai da amiga dela se chama josé. 20 minutos depois, lacrimejando, ela me chama no cantinho:

– teacher, eu tô mentindo…

– mentindo, bia? como assim?
– o pai da bárbara não chama josé, eu esqueci o nome deleeeeee! [e desata a chorar]
– ô meu amor, não tem problema! às vezes a gente esquece o nome dos pais dos nossos amigos, é normal. eu nem sei o nome do pai de todos os meus amigos…
– mas eu tô mentindo, meu nariz vai cresceeeeeer! [e se joga, aos prantos, no meu colo]
– não vai crescer, não, bia, prometo pra você. só no pinocchio o nariz cresce, o seu não vai crescer…
– ai, teacheeeer, desculpa que eu menti…
– ô, meu amor, não precisa pedir desculpa, não…

**

bia conseguiu subir na árvore do playground sozinha pela primeira vez hoje:
TEACHER! EU CONSEGUI! OLHA, TEACHER! TEACHER, EU CONSIGO VER TUDO! ISSO AQUI É MARAVILHOSO! AI, TEACHER, NÃO ME DEIXA CAIR! OLHA O FELIPE LÁ! NOSSA, TEACHER, EU TÔ MUITO ANIMADA! EU TÔ MUITO FELIZ! NOSSA, QUE LINDO! TEACHER, CONTA PRA MINHA MÃE? UAU, QUE LINDO! EU VEJO OS PRÉDIOS! OLHA ESSA FOLHA, QUE LINDA!

(momento de contemplação)

teacher, como desce?!

**

– como foi sua viagem, bia?

– você sentiu saudade de mim?

**

disputa de brinquedo, bia bate na marina, marina chora, bia cuida da marina, marina supera, roda de conversa sobre o bater, “quem sabe tentando falar com a marina ou chamando a professora você consegue resolver os problemas de outro jeito, né bia?”

bia: tá bom. na próxima eu tento esse ESQUEMA aí que você tá falando.
eu: obrigada, beatriz.

**

hoje a bia conseguiu:

1. brigar com a marina e a rafaela;
2. brigar com o miguel e a teacher lymda;
3. derrubar o copo de água da aquarela na própria pintura;
4. arrancar uma das nossas flores com raiz e tudo porque ela achava que ia encontrar uma cenoura embaixo da terra (♥);
5. cair e bater a perninha no parque.

ao fim do dia, dei um abração nela e falei: “às vezes a gente tem uns dias bem ruins, né bia?”

ela me ouviu e concordou. eu me ouvi e concordei também.

**

no início do ano, a bia não se dedicava nem cinco minutos a um desenho. fazia qualquer coisa e fim, cabou, próxima atividade, prfv. lutamos.

hoje, treinando por cartão de dia dos pais que eles vão fazer, ela fez SEIS retratos do pai, não ficou plenamente satisfeita e disse que amanhã vai fazer um ainda “maaaais lindo”.

fiz alguma coisa certa nessa vida sim ou com certeza?

nota do editor: meia-hora depois, iniciou-se uma sequência de pequenos desastres cotidianos que incluiu chorar porque o lanche não tava bom, brigar com a rafaela, brigar com TODO MUNDO no parque, não participar de metade da aula de música, abrir o tubinho de m&m’s que a rafaela deu pra ela e que eu tinha pedido TROCENTAS vezes pra ela abrir em casa, derrubar metade dos m&m’s no chão, chorar porque derrubou os m&m’s, comer parte dos m&m’s do chão, reclamar que não ia almoçar na escola, se acostumar com a ideia de que não ia almoçar na escola, reclamar quando descobrimos que sim, ela ia almoçar na escola, chorar porque não queria a cenoura no prato. enfim. só mais um dia da vida com a bia.

**

– bia, guarda a massinha pra gente, por favor?

– aham.

WP_000317

– bia, você pode voltar aqui um minuto por favor?

**

viva o filosofinhas! viva a bia!

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

presilhinhas

[post originalmente publicado no facebook em novembro de 2013]

ando às voltas com os ensaios da apresentação de fim de ano das meninas do ballet. das minhas seis, quatro dançarão. tem passado pelas minhas mãos muitas roupinhas rosas, muitas florzinhas, elastiquinhos, grampinhos, meias-calçazinhas, sapatilhinhas. muita fofura pro meu ‘teaching style’. muita delicadeza batendo de frente com a minha preferência por azul e por jogar futebol com os meninos no parque.

este ano, após duas turmas de maioria masculina, me vi rodeada de meninas. meninas criadas sob o registro padrão do que é ser menina. mini princesas. de pronto, bani as maquiagenzinhas na escola. uma meleca de batonzinhos espalhados pelo chão, “deus me livre, cadê os bonecos do hulk que estavam aquiiii?!”, eu pensava. meninas competitivas, doces, intensas, delicadas, mandonas. rosa aqui, rosa acolá. brinquedos miudinhos, fofinhos, princesas aqui, princesas acolá. meninas que sofrem. preocupadas com sua aparência e com a aprovação das outras.

meus meninos, espertos que só eles, logo criaram o mundinho de resistência civil deles onde tudo está sempre legal, onde você pode ir de pijama do batman pra escola, onde mais vale um brinquedo dividido do que nenhum.

foram muitas conversas, muitas atividades coletivas, muitas brincadeiras e brinquedos sem gênero definido para elas chegarem ao ponto que estão hoje que, longe do ideal, ao menos aceita os meninos em suas brincadeiras, o navio pirata, os blocos lógicos (é, pois é. blocos são coisa de menino.). cuidar, no sentido mais amplo do termo, das minhas meninas foi, e ainda é, minha prioridade. mostrar a elas outras formas de feminino, uma bandeira. entendê-las, um desafio. lidar com sua intensidade, um exercício de paciência.

sábado que vem é a apresentação de ballet delas e eu estarei lá cuidando de suas sapatilhinhas, presilhinhas, fantasiasinhas, maquiagenzinhas. cuidar delas foi, e ainda é, minha prioridade. elas são minhas meninas e eu sou o menino delas.

algo a se pensar entre pulseirinhas e ir ao parque quando faz 33 ºC lá fora

são paulo, 7h da manhã, os termômetros marcam 99 ºC à sombra. cheguei hoje à escola já esbaforida por ter andado seis ou sete quarteirões, caminho durante o qual eu pensei em como organizaria meu dia para que as crianças pudessem ir ao parque sem sofrer [muito] com o calor. nosso horário de parque seria às 10h45 e eu tinha pouca mobilidade disponível por conta de aulas extras, outras turmas usando o parque, horário de lanche etc etc. cheguei à conclusão que seria razoável irmos às 8h30, porém teríamos menos tempo disponível por conta da aula de teatro logo em seguida.

depois de recebê-los no portão e irmos até a sala de aula, sentamos na roda, conversamos um pouco e expus a eles nosso dilema do dia: ir ao parque logo em seguida, com menos tempo mas mais frescor, ou prosseguir com o horário das 10h45, abafado porém com mais tempo para brincar. o que seguiu-se foi um surpreendente exercício democrático, muito mais adulto do que o que estamos vivendo nas ruas e, principalmente, na ~internet~.

porém, antes de contar o que aconteceu hoje, contarei o que, por observação empírica, eu esperava que acontecesse: “modinhas” e comportamentos em efeito dominó são coisa comum entre crianças de quatro e cinco anos. basta que um ou outro líder faça uma escolha para que as demais comecem a seguir o comportamento desta criança. dito isto, sempre que eu tentei fazer algum tipo de votação em sala de aula, acabava que o desejo de pertencimento e aceitação falava mais alto e vários que votariam em X modificavam seu voto exatamente porque o joãozinho ou a mariazinha votariam em Y. o mesmo acontece com ~a moda na educação infantil~, que tem feito com que eu me afogue em um mar sem fim de pulseiras iniciado pela teresa e seus 76 acessórios diários ou nas decisões mais cotidianas, como a escolha da cor do papel em que vão desenhar ou no modelo da escova de dente.

por mais que eu estivesse com calor hoje, no fundo eu queria que o parque calorento porém grande ganhasse porque ainda que eu não suporte calor, tenha pressão baixa e desmaie com frequência no verão, o suor não é maior do que o de ter que tirar as crianças do parque correndo ou nos atrasaremos para outra atividade. expus as duas opções de parque e fui perguntando, um a um, o que eles preferiam. oito crianças se decidiram pelo parque calorento e grande, quatro queriam o parque fresco e pequeno. o que me surpreendeu foi que enquanto cada um declarava seu voto, os que haviam votado no parque pequeno e fresco não mudaram seu voto. eu ainda refiz a votação porque quatro crianças chegaram atrasadas e ainda assim os que haviam votado no parque pequeno prosseguiram convictamente acreditando que esta era a melhor opção.

os quatro ficaram chateados, é claro, mas não deixaram de ir ao parque, afinal, parque e paçoquita são duas coisas que não se recusa. mas o que eu gostei mesmo de ver foi que eles não deixaram a peteca cair e, principalmente, que os “vencedores” em nenhum momento fizeram chacota dos “perdedores”. votação encerrada, nossa rotina foi decidida e prosseguimos com nossos afazeres.

desde as manifestações de junho de 2013, reparei que muitas pessoas que antes sem mantinham alheias a manifestações políticas, hoje estão se sentindo no direito e no dever de se interessar mais sobre o assunto. às vésperas do segundo turno, não se fala em outra coisa. minha pulga atrás da orelha, porém, é quanto deste interesse é realmente genuíno e quanto é pura modinha, desejo de pertencer, de fazer o que os outros fazem. a impressão que eu tenho é que falar de política em 2014 é mais ou menos o que foi instalar o instagram quando ele foi lançado, “comassiiiiiim, você ainda não tem instagram, miga?”

sendo pura modinha, me preocupa a quantidade inacreditável de dados falsos, mentiras, informações sem fonte [gente, plmdds, eu faço mestrado, coloca fonte nas coisas ou eu desmaio], discursos de ódio e demais nojeiras que todos os dias insistem em aparecer na nossa frente, seja na timeline, no táxi, no salão, na fila de supermercado. porque um dos princípios básicos da modinha na educação infantil [e na vida adulta, pelo visto] é o desejo de pertencimento infinitamente maior do que o suprimento de reais necessidades, o que faz com que eu esteja lidando com um mar de pulseirinhas inúteis pela manhã e um mar de imbecilidades agressivas na internet e nas ruas à tarde.

e eu tenho quatro alunos que, apesar de saber que iam perder, insistiram em seu desejo por um parque pequeno e fresco hoje de manhã sem se preocupar no que o joãozinho e a mariazinha estavam votando. tenho outros oito que se pouparam do discurso do “já ganhou”, não criticaram nem agrediram fisicamente os quatro e votaram depois de me ouvir atentamente explicar três vezes as nossas opções. resumindo, se você não está debruçado em informações com fonte, dados, pesquisas etc, eu te julgo mais do que julgo minhas meninas com os braços cheios de pulseirinhas, porque não cair na armadilha da modinha, julgar opções a partir de fontes fidedignas e não hostilizar o amiguinho é coisa que se aprende na educação infantil.

esse tal de gigante acordou e precisa, urgentemente, colocar um tênis no pé, uma mochila nas costas e ir para a escola.

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

o inferno são os outros

dia dos professores chegando logo após o dia das crianças, uma semana de chuva, suor e cerveja  uma rodada de suco pra galera nas escolas e muitos, muuuuitos presentes rolando de lá pra cá. sim, como se não bastasse o privilégio de trabalhar com a categoria de pessoas mais legal do ciclo da vida, professoras de educação infantil detêm grande parcela da tradição de serem presenteadas no dia dos professores. depois disso, é só ladeira abaixo, eu sei, e sinto muito pelos meus colegas de profissão dos ensino fundamental e médio. dez pontos para a massinha, zero para o livro didático. mwuah.

hoje a luciana chegou na escola toda feliz com uma sacola de presente para mim. como ela estava um pouco atrasada e as demais crianças estavam na aula de música, eu a recebi no portão sozinha e ela não reparou que, ao meu lado no banco, havia outros três pacotes de presentes. “teacher, teacher, eu trouxe um presente pra você!”, ela exclamou com um sorriso de orelha a orelha. imediatamente me agachei para lhe dar um abraço, um beijo e agradecer pelo presente, independente do que fosse, é claro [é um porta-joias lindo, aliás]. neste momento, enquanto nos abraçávamos, luciana soltou a fatídica pergunta: “eu fui a primeira a te dar presente, né teacher?”.

temos, eu e a luciana, uma relação bastante próxima por conta do combo temperamento similar + admiração mútua com suprimento de carência grande por mais um real. vira e mexe ela pula no meu colo, vive perto de mim e me requisita para mostrar seus brinquedos, atividades, pinturas e, até mesmo, para pedir minha opinião em meio às discussões e conversas que tem com outras crianças. eu a acho uma das pessoas mais bonitas que eu já vi na vida, das mais justas, humanas e leais. luciana é séria e, dizem por aí, eu também sou. por conta disso tudo, não me ocorreu mentir para agradá-la, até porque ela logo veria as demais sacolas e eu correria o risco de magoar ainda mais a minha pequena susan sontag. olhando no fundo da imensidão dos seus olhos, com certo pesar e tomando cuidado para soar o mais natural possível, respondi: – não, lu. na verdade, não. eu já ganhei outros presentes. 

BOOM. a decepção em seus olhos foi insuportavelmente visível. na hora pensei que devia ter mentido ou não talvez será que eu devia ter falado outra coisa ai meu deus júlia você não tem condições de cuidar de crianças olha a carinha dela o que foi que fiiiiiiiiiz?! peguei-a pela mão e expliquei que sim, já tinha ganho outros presentes mas que isso não importava, que eu a amava muito e que tinha ficado muito feliz de ter ganho um presente dela. quietinha e meio jururu, ela me ouviu e, sem muita alternativa, largou sua mochila no banco e foi encontrar os amigos na aula de música. quando subimos para a sala de aula, sentei na roda com todos eles e abri cada presente. a luciana estava sentada ao meu lado e prestava muita atenção às minhas reações, como se quisesse medir meu entusiasmo e garantir que, ao abrir seu presente, ele fosse maior que os demais.

fosse a luciana outra criança, eu poderia dizer que querer ser a primeira e prestar atenção ao meu entusiasmo seriam sintomas de uma competitividade arraigada. mas a luciana não é competitiva, não faz questão de ser a primeira nunca, não sofre quando perde, não se exalta quando ganha. hoje, a luciana só queria ser especial, única e insubstituível através de uma sacola de presente no dia dos professores, como se tê-la na minha vida já não fosse presente suficiente. ela não sabe disso, é claro, mas ela é. é claro que eu entendo a luciana. é difícil, exige alta dose de maturidade e serenidade aceitar que aquele que queremos agradar, a quem queremos ser insubstituíveis, especiais e únicos, pode ser agradado por terceiros, ainda que não necessariamente da mesma maneira. talvez porque nossa unicidade e especialidade residam exatamente em elementos que só o outro é capaz de enxergar, quando nos propomos a ser únicos e especiais não estamos nada mais do que repetindo certas fórmulas. hoje a luciana viveu a experiência de querer ser a primeira e não foi. quantas vezes quisemos ser os primeiros na vida do outro e não fomos? quantas vezes quisemos ser especiais ou mais-especiais-que-todos-os-especiais-do-mundo e falhamos miseravelmente? quantas vezes quisemos ser os melhores – ou tínhamos certeza de que seríamos – e a realidade veio mostrar que talvez nós fôssemos mesmo, mas não aquele dia, aquela hora, naquele lugar?

não é simples nem gostoso se misturar à multidão. aceitar que, entre sete bilhões ou entre qualquer outro universo numérico, somos mais um. não é, definitivamente, um processo tranquilo compreender que nossa unicidade e especialidade resida apenas no outro. oh deus, acreditar quando o outro fala que somos, então, pode ser um inferno. hoje a luciana chegou com um presente para mim querendo ser a primeira e não foi e eu tive contar para ela que não é um presente, mas sim ela inteira que a faz única e especial para mim. sabe-se lá o que ela vê em mim que fez com que ela quisesse me agradar da forma que tentou. talvez porque ela saiba que eu sei que eu tenho o trabalho mais legal do mundo. a quem caiba, feliz dia dos professores. aos demais, sejam professores: é o trabalho mais legal do mundo. ❤

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.