pasárgada ou porque eu amo o pinterest

sinceramente, eu não faço ideia de como a educação infantil funcionava antes do advento do pinterest. “muito bem, júlia”, alguns responderão já torcendo o nariz para o meu excesso de contemporaneidade como quem vê um jovem chamando de hashtag o botão do jogo da velha no teclado dos telefones fixos. pois eu bem duvido.

no pinterest encontra-se as atividades, jogos, brincadeiras, projetos e brinquedos de material reciclável mais bonitos da internet. o pinterest torna qualquer ser humano in-ca-paz de jogar o rolinho de papelão do papel higiênico fora, porque lá descobre-se que com a tinta, a cola e a dobrinha certa, ele pode virar o mais belo dos brinquedos. particularmente, ando pirando nos “quiet books”, uns livrinhos feitos de feltro com uma atividade diferente em cada página, muito gostosinhos para crianças de dois a três anos, ainda que meus alunos já tenham quase cinco. há de chegar o dia em que terei a oportunidade de fazer um “quiet book”, ainda que cortar feltro seja uma tarefa muito próxima de ouvir capital inicial preso no trânsito da 23 de maio: é chato pra caralho.

mas não é só isso, meus amores. o pinterest oferece muito, muito mais. dicas de decoração, projetos arquitetônicos tipo capa-da-arquitetura-e-construção, receitas culinárias do melhor do ogro food ao crème de la crème da alimentação saudável: o potencial da quinoa, ele é infinito. e os cabelos? quantas tranças pode um ser humano aprender a fazer? e onde neste planeta eu teria acesso a vinte tipos diferentes de amarração que tornariam o mais medíocre dos cachecóis num must-have saído da capa da edição de setembro da vogue?

e os DIY [do it yourself], que me fazem querer sair correndo direto para a lojinha de aviamentos para preencher de renda uma bexiga que, potencialmente, se tornará uma bela luminária? e o que se pode fazer com um caixote de feira?! chola mais, marcelo rosembaum! os casamentos, então, são um espetáculo à parte: as fotos fazem com que eu acredite piamente que com uns 2.000 dinheiros, galhos de lavanda, potes, a quantidade ideal de luzinhas de natal e um bom filtro do instagram, pode-se ter o casamento dos sonhos. tudo tão lindo, leve e singelo, ninguém é infeliz no pinterest.

desnecessário dizer que de todas as ideias geniais que o pinterest já me deu, a única que eu coloquei em prática foi pintar umas coisas com tinta spray roxa aqui em casa. não fiz a hortinha dos sonhos, o mini-wedding charmoso, a tatuagem hipster de seta, eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, comprei minha estante de livros ao invés de fazê-la com pedaços de madeira encontrados por aí.

mas com as crianças eu faço. faço mesmo. mal acabamos de fazer uma pistinha de carros com uma velha caixa de papelão que tem túnel e tudo e já estamos trabalhando na decoração da nossa sala para o festival do livro da escola. nosso tema: dr. seuss. nossa fonte: o pinterest, é claro. das quatro zilhões de ideias geniais que lá eu encontrei, selecionei algumas para fazermos que as crianças pudessem fazer meeesmo, não só ficar olhando. exatamente por não ser o que se pode chamar de rainha das artes manuais, eu me aproximo muito deles nestes momentos: não sei o quão difícil é nem quanto trabalho vai dar colocar aquelas ideias em prática, só sei que é legal. e a lei da vida é essa: se é legal, vale a pena.

a próxima semana vai ser assim: eu meio sem saber exatamente o que fazer, tendo ideias conforme as coisas vão acontecendo. errando tanto quanto eles, me divertindo tanto quanto eles. fazendo coisas pela primeira vez, assim como eles. o pinterest me proporciona essas raras oportunidades em que substituímos o que pode ser feito pelo que queremos fazer, pelo que é legal, bonito e divertido. eu perco o controle, não espero deles um potencial a ser atingido; também, não espero de mim que meus alunos cheguem a algum lugar. o lugar está aí, já estamos nele quando o carlos pinta pra fora da linha e eu faço o mesmo meia hora depois. é difícil pintar dentro da linha, é difícil. no fim, ficou meio tortinho mas lindo, foi a gente que fez, tá com a carinha deles.

no pinterest, tudo é lindo, feliz e criativo. em contraste com a realidade, é um não-lugar, uma invenção, uma ficção. mas é lá que eu encontro uma infinidade de possibilidades e ideias para tornar essa realidade cada vez mais feia, impossível e dura num lugar mais bonito e alegre. principalmente, num lugar sobre o qual eu não tenho o menor controle, mas que com a quantidade certa de tinta spray, um belo stencil e uma caixa de papelão, eu posso fazer coisas pela primeira vez.

é emocionante fazer coisas pela primeira vez.

os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “pasárgada ou porque eu amo o pinterest

  1. Pingback: machismo papel crepom | filosofinhas

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