clube dos cinco

Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

[elisabeth bishop traduzida pelo paulo henriques brito]

contando por alto, eu já “perdi” algo em torno de 95 alunos em seis anos de sala de aula e todas estas perdas podem, tranquilamente, ser subdivididas em uma série de categorias: houve as perdas dolorosas, as não sentidas, as, de certa forma, celebradas [ai, teve mesmo, me desculpem], as desejadas e as naturais, que fazem parte do jogo de dizer “tchau” no fim do ano. e é isso mesmo, c’est la vie. as crianças vão embora, eu sigo em frente e já me acostumei à dinâmica de conviver intensamente com um grupo de pessoas durante nove meses e me separar delas em seguida para, então, conhecer, me adaptar e conviver intensamente com um novo grupo.

em fevereiro, eu tinha dez alunos em sala. em março, nove. no início de agosto, oito. a partir de amanhã, cinco. isso, isso mesmo. cinco crianças e só. inaugura-se então uma nova categoria de perda que, sendo nova, eu estou bem longe de estar acostumada: a perda em massa. minha turma, agora, é metade do que um dia já foi e isso diz muito para mim, para as crianças que ficaram, para a escola, e sobre a maneira como todos nós lidaremos com o fato de que metade de nós foi embora.

pois bem. existe um mito de que quanto menos alunos você tem, melhor sua vida é, o que é absolutamente verdadeiro. é claro que ensinar cinco é mais fácil que ensinar dez ou dezoito. é óbvio que escovar os dentes de cinco é mais rápido que escovar os dentes de dez ou dezoito. evidentemente, enquanto as demais professoras da escola estiverem se descabelando para dar conta de escrever seus dez ou dezoito relatórios no fim do ano, eu já vou poder estar comendo panettone e assistindo netflix de boa  bolando montes de atividades e brincadeiras extras divertidas para o meu mínimo grupo de cinco. acho que minha vida é melhor que a das outras? não. estou feliz com essa situação? não. meus alunos estão achando normal serem reduzidos pela metade? não. não mesmo.

eu não sou, nem pretendo ser, muito versada em engenharia, mas me parece óbvio que uma construção aguenta até um certo ponto de abalo, depois ela desmorona. quando há, numa sala de aula, um número grande de alunos e cinco deles saem ao longo do ano, aparecem umas rachaduras, umas infiltrações aqui e ali facilmente identificáveis, mas que não representam perigo algum para a estrutura da turma. quando estes cinco alunos representam, porém, metade da estrututra, é como se uma parte significativa das colunas de sustentação de um prédio tivesse sido atingida [ai, socorro, tá certo isso? algum(a) engenheiro(a) me lê?] e medidas precisam ser tomadas para que tudo não desmorone de vez.

em uma semana, meus alunos perderam três colegas de sala, além dos dois que já haviam ido. três crianças que, sem sombra de dúvidas, exerciam papel importante no equilíbrio do grupo, no bem-estar social e afetivo dos demais e, consequentemente, no meu. enquanto o carlinhos estivesse com o antônio, eu sabia que ele estava bem. enquanto eu tivesse a luiza no grupo, eu não teria que me preocupar com quem a carol iria brincar na hora do recreio. enquanto o nicolas estivesse entre nós, eu sabia que tinha ali uma das pessoinhas mais alegres e festeiras que já conheci.

agora eu não sei mais. não sei como o carlinhos vai estar amanhã. não sei com quem a carol vai brincar na hora do recreio nem terei na manga o nicolas para dar aquela animada na galera. dentre as medidas que serão tomadas, está juntar meu clube dos cinco com outra turma em algumas aulas extras, o que significa ainda mais mudanças: conhecer, se enturmar, aprender a conviver e encontrar uma alegria entre outras pessoas com as quais sua relação foi, até agora, absolutamente superficial ao mesmo tempo que, entre nós, vamos ter que encontrar uma nova forma de viver, apesar de todas as perdas, apesar de estarmos pela metade.

na sexta-feira, eu chorei ao acordar, no caminho para a escola e ao encontrar, pela última vez, a carol e a luiza brincando juntas perto do portão. apesar da festa de despedida, do imenso bolo de brigadeiro trazido pelas mães para celebrar o que, naquele momento, me parecia incelebrável e das minhas patéticas tentativas de animar as crianças dizendo que eles ainda se encontrariam fora da escola, que a vida é assim mesmo, que a saída de seus colegas não significa o fim da amizade entre eles, eu mesma não botava fé na minha animação nem nas palavras que saíam da minha boca. perdemos, sim, meus queridos, perdemos umas colunas, tá doendo, vai doer e qualquer dia desses a gente vai começar a enxergar o ganho dessa mudança mas, por ora, é só perda, perda, perda e é uma grande merda tudo isso: era isso que eu queria poder dizer, porque perder é perder. perder doi e nós perdemos pra caramba; tivemos nosso 7 x 1 particular e eu era o david luiz.

depois de chorar mais um tanto e de ensaiar este post em vão, acabei capotando à tarde, à noite saí para tomar caipirinha de maracujá [que é, e sempre será, a melhor caipirinha, repassem] e, em vários momentos ao longo do fim-de-semana, esqueci completamente deste assunto, mas amanhã cedo ele será a única coisa que eu vou conseguir pensar. vou cuidar para que os cinco fiquem bem, se divirtam, recebam a atenção e o colo que talvez necessitem até que nossa metade vire um inteiro menor, é verdade, porém um inteiro.

pois bem. existe um mito de que quanto menos alunos você tem, melhor sua vida é, o que é absolutamente verdadeiro, mas só quando este “menos” significa apenas pequenas rachaduras e infiltrações. quando se perde uma coluna de sustentação, o “menos” é uma merda, um 7 X 1, uma perda; e perder doi.

*os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “clube dos cinco

  1. Que texto incrível.
    Gosto de tudo que você escreve, mas esse descreveu tanto algumas situações da minha vida.. Essa coisa de rachaduras, funciona tão bem não só pro campo profissional, mas pra todos os outros..
    Fique firme!
    Beijos

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