algo a se pensar entre pulseirinhas e ir ao parque quando faz 33 ºC lá fora

são paulo, 7h da manhã, os termômetros marcam 99 ºC à sombra. cheguei hoje à escola já esbaforida por ter andado seis ou sete quarteirões, caminho durante o qual eu pensei em como organizaria meu dia para que as crianças pudessem ir ao parque sem sofrer [muito] com o calor. nosso horário de parque seria às 10h45 e eu tinha pouca mobilidade disponível por conta de aulas extras, outras turmas usando o parque, horário de lanche etc etc. cheguei à conclusão que seria razoável irmos às 8h30, porém teríamos menos tempo disponível por conta da aula de teatro logo em seguida.

depois de recebê-los no portão e irmos até a sala de aula, sentamos na roda, conversamos um pouco e expus a eles nosso dilema do dia: ir ao parque logo em seguida, com menos tempo mas mais frescor, ou prosseguir com o horário das 10h45, abafado porém com mais tempo para brincar. o que seguiu-se foi um surpreendente exercício democrático, muito mais adulto do que o que estamos vivendo nas ruas e, principalmente, na ~internet~.

porém, antes de contar o que aconteceu hoje, contarei o que, por observação empírica, eu esperava que acontecesse: “modinhas” e comportamentos em efeito dominó são coisa comum entre crianças de quatro e cinco anos. basta que um ou outro líder faça uma escolha para que as demais comecem a seguir o comportamento desta criança. dito isto, sempre que eu tentei fazer algum tipo de votação em sala de aula, acabava que o desejo de pertencimento e aceitação falava mais alto e vários que votariam em X modificavam seu voto exatamente porque o joãozinho ou a mariazinha votariam em Y. o mesmo acontece com ~a moda na educação infantil~, que tem feito com que eu me afogue em um mar sem fim de pulseiras iniciado pela teresa e seus 76 acessórios diários ou nas decisões mais cotidianas, como a escolha da cor do papel em que vão desenhar ou no modelo da escova de dente.

por mais que eu estivesse com calor hoje, no fundo eu queria que o parque calorento porém grande ganhasse porque ainda que eu não suporte calor, tenha pressão baixa e desmaie com frequência no verão, o suor não é maior do que o de ter que tirar as crianças do parque correndo ou nos atrasaremos para outra atividade. expus as duas opções de parque e fui perguntando, um a um, o que eles preferiam. oito crianças se decidiram pelo parque calorento e grande, quatro queriam o parque fresco e pequeno. o que me surpreendeu foi que enquanto cada um declarava seu voto, os que haviam votado no parque pequeno e fresco não mudaram seu voto. eu ainda refiz a votação porque quatro crianças chegaram atrasadas e ainda assim os que haviam votado no parque pequeno prosseguiram convictamente acreditando que esta era a melhor opção.

os quatro ficaram chateados, é claro, mas não deixaram de ir ao parque, afinal, parque e paçoquita são duas coisas que não se recusa. mas o que eu gostei mesmo de ver foi que eles não deixaram a peteca cair e, principalmente, que os “vencedores” em nenhum momento fizeram chacota dos “perdedores”. votação encerrada, nossa rotina foi decidida e prosseguimos com nossos afazeres.

desde as manifestações de junho de 2013, reparei que muitas pessoas que antes sem mantinham alheias a manifestações políticas, hoje estão se sentindo no direito e no dever de se interessar mais sobre o assunto. às vésperas do segundo turno, não se fala em outra coisa. minha pulga atrás da orelha, porém, é quanto deste interesse é realmente genuíno e quanto é pura modinha, desejo de pertencer, de fazer o que os outros fazem. a impressão que eu tenho é que falar de política em 2014 é mais ou menos o que foi instalar o instagram quando ele foi lançado, “comassiiiiiim, você ainda não tem instagram, miga?”

sendo pura modinha, me preocupa a quantidade inacreditável de dados falsos, mentiras, informações sem fonte [gente, plmdds, eu faço mestrado, coloca fonte nas coisas ou eu desmaio], discursos de ódio e demais nojeiras que todos os dias insistem em aparecer na nossa frente, seja na timeline, no táxi, no salão, na fila de supermercado. porque um dos princípios básicos da modinha na educação infantil [e na vida adulta, pelo visto] é o desejo de pertencimento infinitamente maior do que o suprimento de reais necessidades, o que faz com que eu esteja lidando com um mar de pulseirinhas inúteis pela manhã e um mar de imbecilidades agressivas na internet e nas ruas à tarde.

e eu tenho quatro alunos que, apesar de saber que iam perder, insistiram em seu desejo por um parque pequeno e fresco hoje de manhã sem se preocupar no que o joãozinho e a mariazinha estavam votando. tenho outros oito que se pouparam do discurso do “já ganhou”, não criticaram nem agrediram fisicamente os quatro e votaram depois de me ouvir atentamente explicar três vezes as nossas opções. resumindo, se você não está debruçado em informações com fonte, dados, pesquisas etc, eu te julgo mais do que julgo minhas meninas com os braços cheios de pulseirinhas, porque não cair na armadilha da modinha, julgar opções a partir de fontes fidedignas e não hostilizar o amiguinho é coisa que se aprende na educação infantil.

esse tal de gigante acordou e precisa, urgentemente, colocar um tênis no pé, uma mochila nas costas e ir para a escola.

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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