o tom da coisa

“até as crianças estão mais felizes”, foi o que eu disse hoje de manhã. não que elas não sejam felizes ou que estivessem tristes antes. nós sempre fomos felizes apesar de todos os percalços, obrigada, de nada. mas há um certo tempo elas estão ainda mais sorridentes, ainda mais engraçadas, ainda mais leves. nosso cotidiano tem estado muito mais tranquilo e isso tem feito um bem enorme a todos nós.

“mas o que mudou?”, eu me pergunto. nada. absolutamente nada. e tudo ao mesmo tempo. nossa rotina continua igual, nossos horários, nossas regras, nossos momentos de descanso e respiro. tudo igualzinho. ou não.

além de dar aula, preparar e desmontar atividades, correr de um lado para o outro com agenda, remédio, fita crepe, pincel e casaco, uma das funções – e, diga-se de passagem, das mais primordiais – de uma professora é dar o tom da coisa, da vida enquanto estamos juntos dentro e fora de sala de aula. sé é nosso dever cuidar da integridade física das crianças, é nosso dever, também, cuidar da integridade emocional de cada uma delas.

e é aí que entra o tom da coisa e da vida. uma professora – quanto poder! – é capaz de erguer e fazer desmoronar ânimos e desejos. é capaz de entristecer uma criança apenas com olhar. é capaz de enraivecer uma turma inteira com um só grito. sim, é muito poder. um poder que pode se virar contra ela, é verdade, mas, ainda assim, poder em estado puro. mas tudo não é só sofrimento. uma professora pode ser as trevas e, também, a redenção de seus alunos, e é aí que chegamos à parte mais bonita da coisa e da vida.

mas a gente tem coisa demais para resolver e o ambiente escolar pode ser bastante hostil por conta disso, ainda que travestido de ludicidade e delicadeza. de dentro do olho do furacão, uma professora nem sempre é capaz de perceber o quanto ela influencia seus próprios alunos. mas eles sabem. eles sempre sabem perfeitamente o que sua professora sente e entram na mesma sintonia.

de dentro do olho do furacão, já há algum tempo eu percebo que meus alunos estão em um outro ritmo, levando a vida em bossa-nova. e só hoje, sozinha na minha sala arrumando meu armário, organizando coisinhas e pensando no quanto nossa vida tem sido deliciosa enquanto eles estavam na aula de música, me caiu a ficha de que, muitos mais espertos e ligeiros do que eu, meus alunos repararam que o meu tom da coisa e da vida andava mais leve e saboroso antes que eu o fizesse.

meu nome é júlia, eu tenho vinte e sete anos e um bando de crianças de quatro anos que me conhecem muito melhor do que eu mesma.

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “o tom da coisa

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