sobre colos e setembro

[em 13 de setembro de 2013, eu publiquei este texto no facebook. até então, eu só contava histórias descritivas do que acontecia na escola, de modo que este é o primeiro texto no qual eu realmente pensei para escrever. depois deste, vieram mais alguns e, em novembro, o filosofinhas foi criado. eis, portanto, a minha primeira filosofinha. bem-vindo, setembro!]

setembro é um mês interessante. é o mês que, passada a “volta às aulas”, me lembra de que logo o ano chega ao fim. a lembrança vem acompanhada de sintomas concretos: é o mês que conheço as crianças de novo [sim, porque eles mudam nas férias e eu passo agosto inteiro tentando compreender os comportamentos, mecanismos, necessidades e fazeres que surgiram] e que me deparo com a minha própria dispensabilidade diante da cada vez maior autonomia deles. setembro é também o mês em que tudo que está colado nas paredes começa a despencar. setembro é o mês meio doído em que eu percebo que meus braços – fortes pero no mucho – já não têm forças para carregar crianças de quatro anos como se fossem pacotes de biscoito de polvilho, lighter than air. sintomas de fim de ano.

pois nos últimos treze dias todos os sintomas do fim do ano chegaram a cavalo. nas paredes da sala, tudo começa a despencar, as fitas-crepe e massinhas não dão mais conta do peso de nove meses. troco a fita, coloco mais, volto no dia seguinte e o cartaz, até 14 dias atrás impassível diante da passagem do tempo, está caído de novo, meio amareladinho, rasgadinho ali do lado. “nem vale a pena fazer outro, já é setembro”, penso. setembro é também o mês em que eu começo a achar o teto uma opção bastante viável pra colar coisas diante da impossibilidade de usar as paredes [por isso, estamos dedicados a fazer móbiles]. não há fita que impeça a chegada de setembro.

também não há músculo – dos meus – que impeça o crescimento das crianças e, nos últimos dias, tenho sentido meus braços fraquejarem ao fazerem aquilo que mais gostam: pegar no colo. ele nem notou, mas quase derrubei o pedro dia desses. hoje, não me contive ao ver a beatriz chorando por causa de uma maldadezinha da luiza: a peguei no colo e, enquanto suas lagriminhas caíam na minha camiseta, eu só conseguia pensar em como ela está enorme, em quanto os meus braços estavam doendo, no porquê de as camisetinhas dela estarem justinhas [e a mãe dela não vai comprar outras, afinal, é setembro]. não há diminutivo que sobreviva a setembro.

as memórias do nosso ano vão caindo das paredes enquanto a minha força física, aquela na qual eu depositava toda a minha confiança ao dizer “pode pular, sofia, se você cair eu te seguro!”, diminui. sintomas de fim de ano. que eu não consiga mais ficar com eles no colo é um sinal – concreto e irrefutável – de que meu tempo na vida deles está acabando e a gente vai seguir em frente. eles, com a nova professora. eu, com crianças mais levinhas.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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4 opiniões sobre “sobre colos e setembro

  1. Oi Júlia, tudo bem?
    Não sei se você sabe, mas ontem foi o dia do blog. Já é uma tradição que nessa data, os blogueiros se juntem para postar indicações de blogs queridos, fazendo com que a ~comunidade~ se fortaleça e pra espalhar boas indicações por aí. Indiquei o Filosofinhas no meu blogday, porque sempre que venho aqui, fico encantada com a forma que você conduz suas histórias: partindo de pequenas observações cotidianas até chegar em conclusões incríveis sobre a vida no geral, sempre com muita sensibilidade e um jeito encantador de escrever.
    Com o post de hoje não foi diferente ❤
    Enfim, gosto muito daqui e adoro ler o que você escreve. Parabéns!
    Se quiser ver o post, tá aqui: http://sooo-contagious.blogspot.com.br/2014/08/blogday-2014.html
    beijos e que setembro seja bom com você e as crianças!

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