um gabriel

todo mundo tem um gabriel. é sério. tente recordar de algum momento de sua vida em que você não teve um gabriel. difícil, não? alheio às raças, credos e ideologias, o gabriel é universal, e é por isso que sempre chega. e é por isso que todo mundo, em qualquer lugar do mundo, tem.

gabriel é um presente do acaso, dos astros. o interessante sobre ter um gabriel é que nunca espera-se que ele vai chegar. ao contrário, um gabriel sempre chega quando espera-se, na realidade, seu contrário. gabriel é um presente. não necessariamente aquela casinha enoooorme da barbie que tem até piscina nem o vídeo game de última geração, mas aquele jogo de tabuleiro universal e eterno que, descobre-se depois, pode ser ainda mais legal do que o presente guardado no maior pacote embaixo da árvore de natal.

um gabriel não causa estardalhaço quando chega. tendo passado diretamente pela fase da paixão avassaladora, um gabriel é mais aquele amor velhinho e gostoso que pede pizza e faz maratona de game of thrones sábado à noite. um gabriel é sempre silencioso, delicado e dedicado aos pequenos prazeres. de início não damos muita bola nem corda ao pequeno gabriel e – pasmos – logo descobrimos que gabriel conseguiu chegar mesmo com a nossa recusa em dividir os brinquedos. um gabriel é especialista em construir pontes, não castelos. não há muitos muros ao redor de um gabriel e, por mais que tentemos, um gabriel é sempre capaz de derrubar aqueles que construímos. tijolo por tijolo e sempre à noite para ninguém ver, um dia acordamos e descobrimos que o muro que havíamos construído ali não existe mais. ah, gabriel, seu destruidor de defesas!

gabriel é o padrasto da marina e participou, animado, de cada um dos momentos da nossa festa do dia dos pais. brincou horas com a marina e suas amigas no parque, recebeu e se emocionou com o presente, conversou comigo e com os pais das outras crianças com a tranquilidade e leveza de quem sabe que é um presente na vida do outro. o gabriel é o presente que o acaso e os astros deram para a marina.

a marina tem um pai, mas esse pai mora fora do brasil e, até onde eu sei, é um pai de skype. este pai, a marina chama de “pai”. o gabriel é o novo marido da mãe da marina, mora com ela, a leva na escola, no parque para andar de bicicleta e para a praia nas férias. este gabriel, a marina chama de “tio gabriel”. ciente da dinâmica da família e conhecendo uma das crianças mais bem resolvidas que já pisaram na minha sala, resolvi perguntar, sem muitos rodeios, para quem a marina gostaria de fazer o presente de dia dos pais. “para o tio gabriel”, foi o que ela me respondeu.

ano passado a marina dizia para todo mundo que seu pai iria na festa de dia dos pais da escola e é claro que ele não foi. à época, o gabriel estava ainda construindo sua ponte e retirando, tijolo por tijolo, o muro que havia entre ele e a marina. 2014 chegou e, com ele, chegou também o gabriel, tão presente no cotidiano da marina quanto sua mãe e seus avós. a marina sabe que o gabriel não é seu pai e, pelo visto, não quer que ele seja. para ela, o gabriel é um gabriel e basta. ser gabriel não é ruim, muito menos ter um gabriel.

um gabriel é aquela pessoa que recebemos quando esperamos outra que acreditamos piamente ser o melhor que pode nos acontecer. por milhares de motivos, ela não vem. ou se vai. timidamente, então, chega um gabriel, que sempre achamos que será menor, mais frágil e menos interessante do que a pessoa que esperávamos. sagaz e paciente porém, um gabriel não só é capaz de construir pontes e destruir muros como também tem o poder de redefinir nossos critérios. talvez um gabriel não seja tão ruim assim, no fim das contas. pode-se tentar ter um gabriel. hm, ter um gabriel é maravilhoso!

o gabriel não é o pai da marina nem nunca será. ela tem um pai e sabe disso. mas o gabriel é um homem – talvez “o” homem – de sua vida neste momento. não é um arremedo de pai, mas sim um amor, um outro tipo de amor. bom também. bem bom. sabe-se lá se o pai da marina um dia voltará para o brasil, se o gabriel e sua mãe seguirão casados para sempre, se a marina vai, aos poucos, adotar o gabriel como seu pai. por enquanto, o gabriel é o primeiro gabriel de sua vida. me ocorre agora que é provável que a marina também seja um gabriel para o gabriel. não um arremedo de filha, mas um amor. um tipo, digamos, mais baixinho de amor.

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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12 opiniões sobre “um gabriel

  1. Não sabia onde escrever sobre o “meu” gabriel.
    Meu filhote caçula. Fez 20 anos, esse ano. Eu escrevi isso aqui pra ele, ano passado. Ele não é nada silencioso ou delicado, pelo contrário, é um pequeno furacão. Mas ter um gabriel na vida é das melhores coisas do mundo.

    Ele é teimoso que dói. Turrão, quando arma a tromba, melhor sair de perto e dar um tempo. É impulsivo, agitado, apressado. Obstinado, mas não muito persistente. Um pouco impaciente, inconstante, os olhos sempre abertos , bebendo cada gota da vida, interessado em tanta coisa ao mesmo tempo que não dá conta de concentrar. Ele é contestador, avesso a normas, não teme enfrentamentos. É destemido, às vezes até as raias da imprudência. Mas é corajoso acima de tudo, daquela coragem de alma, de fibra. Tem uma certa arrogância, natural da idade, aquela sensação de que sabe tudo o que precisa, que a vida lhe pertence. Em relação aos que ele ama é superprotetor, se deixar até meio controlador. E tremendamente implicante.

    É forte, de corpo e de espírito, e é gentil. Gosta de bichos, plantas e crianças e bichos, plantas e crianças o amam instantaneamente. Tem um senso de justiça profundo, quase nada o deixa tão enfurecido quanto a injustiça. Ele é sensível, doce, amoroso, divertido, brincalhão, bem-humorado. Brilhantemente inteligente. O melhor amigo que alguém pode querer ter por perto: leal, generoso, acolhedor, disponível. E sabe guardar segredos! Os olhos dele brilham, o sorriso ilumina como um sol. Um ambiente em que ele esteja presente é sempre quente e claro (embora meio barulhento também). Ainda por cima o danado é bonito.

    Ele é meu filho, faz aniversário hoje, eu o amo e não caibo em mim de tanto orgulho do homem bacana que ele está se tornando. Parabéns, Gabriel, que a felicidade se derrame em sua vida na mesma proporção em que você a espalha por onde passa.

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  2. Conheci o meu gabriel com sete anos de idade. Ele acompanhou todos os momentos da minha vida, dos mais felizes aos mais tristes. Um grande amigo, irmão, que hoje já é um pedaço de mim. Eles são a manifestação do mais puro amor!

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