820 – 1

prólogo: em 2012, um menino de quatro anos caiu na piscina de uma escola em são paulo e morreu afogado. pelo que eu me lembro da notícia, a turma e as duas professoras já haviam saído da piscina e estavam no vestiário quando o menino retornou à área da piscina e caiu. essas professoras já deviam ter saído da piscina com crianças centenas de vezes e confiavam inteiramente na sua capacidade de executar a tarefa. elas entendiam dos paranauê, como eu também entendo. não lhes faltava competência, como a mim também não falta [acho. dizem. sei lá.]. então chega aquele dia, o belo dia em que alguma micro circunstância muda e coloca à prova suas capacidades. naquele belo dia, o menino resolveu dar um rolê na beira da piscina, acabou com sua vida, destroçou os corações de sua família e, podem ter certeza, de suas professoras. a essas duas profissionais, só me resta desejar força para continuar vivendo com a sombra desta tragédia.

capítulo I, sobre o hábito: levo meus alunos para o parque da escola todos os dias. contando 220 dias letivos por ano X 4, que é a quantidade de anos que eu trabalho com as crianças de quatro anos, eu já fiz esse rolê de entrar e sair do parque 880 vezes. vamos subtrair uns 60 dias de chuva nos quais brincamos em sala e temos aí umas 820 idas ao parque. lá, pés se quebraram [um só, na verdade], crianças já caíram da árvore, muitos olhos já se encheram de areia e muitos joelhos ralados foram lavados. parque, afinal. entrar e sair do parque me é tão rotineiro quanto escovar os dentes, pegar as chaves antes de sair de casa e subir no 857P-10 lotado. eu não penso para levar as crianças para o parque, eu simplesmente levo.

capítulo II, sobre a circunstância: a luciana sempre é a última a guardar os brinquedos em sala e a sair do parque, a rainha do ‘só mais cinco minutinhos’. enquanto eu chamo as crianças para sair do parque de forma coletiva – ‘toys awaaay, let’s go – e todos se juntam a mim em dois ou três minutos, ela fica brincando até que eu comece a me mover com a turma para fora ou até que eu ou a minha assistente a chamemos individualmente. na última terça-feira, fomos para o parque no fim da manhã e saímos de lá diretamente para a saída. eu estava preocupada em chegar ao portão no horário. minha assistente também devia estar pensando em qualquer outra coisa. nenhuma de nós chamou a luciana. a luciana também não se juntou ao grupo. duas circunstâncias extraordinárias.

capítulo III, sobre os minutos: dois minutos após eu chegar no portão com as crianças, minha coordenadora me chama: ‘júlia!’. olho para a direção do som de sua voz e a vejo com a luciana, chorando, no colo. na hora me cai a ficha: ‘puta que pariu, a luciana ficou no parque’. a pego no colo e corro até minha assistente, que está com as outras crianças. a acalmamos, conversamos com ela, as duas em transe. naquele dia, a luciana iria almoçar na escola e minha assistente vai dar almoço para ela e seus colegas depois que ela se acalma. ‘você vai ter que ligar para a mãe dela’, diz a coordenadora uns quinze minutos depois [imaginem se a luciana chegasse em casa e contasse que ficou sozinha no parque? melhor eu assumir a responsabilidade e ligar antes, óbvio].

capítulo IV, sobre a conversa: subo até o escritório da coordenação, conto a história toda para a outra coordenadora e ela tenta me acalmar. ouço um ‘shit happens’, entre uma ponderação e outra. a secretaria liga para a mãe e logo ouço o ‘alô’ do inferno. conto a história sem conseguir formar frases com sentido nem fazer raciocínios muito claros. a mãe quer saber como a luciana está, se quer que busque, se ela chorou muito. bem. não. não. a coordenação fica avisada de que, ao menor sinal de fragilidade da luciana durante a tarde, é para ligar para a mãe para que ela vá buscá-la. passo pelo refeitório e ela está comendo com os amigos como se nada tivesse acontecido. a coordenadora pergunta se a mãe ficou muito brava, eu respondo que não sei, que não deixou transparecer. ela pergunta se eu dei esporro na minha assistente [que foi a última a sair do parque] e eu respondo que não, claro que não. no dia seguinte fico sabendo que ela andou até a guilhotina sozinha e foi se retratar com as coordenadoras antes de ir embora. minha admiração pela menina alcança níveis estratosféricos.

capítulo V, sobre o dia seguinte: tive longas conversas com a minha assistente, com todas as crianças, com a luciana, repassamos o combinado de entrar e sair juntos de todos os ambientes da escola e, pela primeira vez em anos, sou obrigada a pensar racionalmente sobre a ida ao parque. escrevo um recado gigantesco para os pais da luciana na agenda. chove e a gente não vai ao parque, brincamos em sala. ‘é bom mesmo’, penso. a luciana, salvo a lembrança de que ficou sozinha no dia anterior, não demonstra o menor sinal de trauma ou insegurança.

capítulo VI, sobre a recorrência: na quinta, vamos ao parque não sem antes repassar com a luciana o combinado de que ela deve se juntar ao grupo assim que eu chamar. a luciana fica para trás de novo. a chamo duas vezes e ela não vem. implanto rapidamente uma ditadura benevolente, vou até ela e a pego no colo. hoje, não há a opção ‘ficar no parque’. saímos juntas: ela, sorrindo como se nada estivesse acontecendo. eu, como se estivesse tirando uma criança de um prédio em chamas.

capítulo VII, sobre o poder da pipoca: no sábado é a festa junina da escola e a luciana chega quase na hora da nossa quadrilha, tempo suficiente para eu pensar que a mãe está tão brava comigo que não vai nem aparecer [inclusive porque ela nem respondeu meu recado na agenda]. quando ela chega e me diz ‘oi, teacher ju!’, meu corpo derrete pelo chão e tudo o que eu quero é chorar no ombro daquela mulher. danço a quadrilha animadíssima com a luciana ao meu lado. os pais dela filmam, tiram foto, sorriem. tomo coragem para abordá-los e, pasmem, eles falam de quinze outros assuntos, menos do que aconteceu na terça. em outro momento, a luciana está brincando no parque com as amigas e eu consigo abordá-los ali por perto. ‘agora eu sei onde a lu ficou na terça. ela ficou atrás daquela coluna ali, ela me contou’. repasso toda a história, falo do pensar e do não pensar, sobre a luciana ficar e eles dizem que, apesar de ela não ter contado nada em casa, conversaram com ela sobre a necessidade de seguir sempre com o grupo. ‘eu fiquei acabada’, digo. ‘eu imagino’, ela diz, e me faz um afago no braço. eles me ouvem com atenção e tranquilidade o tempo todo e saem da festa com reunião marcada para conversarmos sobre o relatório da menina, festa de aniversário na escola marcada, abraços e a perspectiva de comprar um cachorro para a luciana quando ela estiver um pouco mais velha. eu saio e meu corpo flutua de tão leve.

epílogo: minha história não teria um final trágico como a do menino da piscina. ainda assim, ambas se aproximam na soma de circunstâncias excepcionais e da confiança cega em executar certas tarefas cotidianas. muita gente vai ler essa história e pensar ‘pô, nada demais, a menina ficou dentro da escola, tá tudo bem’ e eu concordo com essa perspectiva. do outro lado, eu concordo também que enquanto ela está na escola, sua integridade física e emocional são de minha responsabilidade e o que aconteceu representa um descuido e uma desatenção que teoricamente não deviam acontecer, mas que a gente sabe que, quando se tem 10, 12, 18 crianças sob nossos cuidados, eventualmente acontecem. há quem a contará dizendo que ela ‘ficou no parque’, compartilhando a responsabilidade. outros dirão que eu a ‘esqueci no parque’, colocando-a toda sobre mim. ambas estão corretas. ela ficou, eu esqueci. na minha narrativa pessoal e depois de alguns dias pensando sobre o que aconteceu, prefiro contá-la como o dia em que eu aprendi que nada, absolutamente nada, mesmo as coisas que já fizemos 820 vezes, estão garantidas.

819 vezes é o número de vezes que eu fui ao parque e nada aconteceu. 1 é o número que realmente me importa.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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7 opiniões sobre “820 – 1

  1. Moça. meu sobrinho de três anos quase se afogou numa piscininha rasa, aos pés da mãe dele. Ela de pé, conversando com as pessoas em volta. O guri, de colete inflável. Pois ele virou de cara pra baixo e não conseguiu alcançar o piso da piscina pra se levantar. E se debateu, e engoliu água, e a mãe, de pé, sentia o filho bater as pernas nas suas, mas achou que ele estava brincando – antes estava. Naquela hora, ele estava se afogando. Meu sogro viu e se jogou na água para agarrar a criaturinha, que saiu azul, já, depois de litros de água bebida e aspirada.

    Carpinejar tem um poema em prosa lindo sobre uma mulher que perdeu o filho, obrigada a ouvir, da escola vizinha, a algazarra das crianças no recreio. Ele escreveu esse poema depois de perder a sobrinha de quatro anos, afogada numa piscina. Com toda a família presente, comemorando aniversário com um churrasco. Ninguém viu, ninguém ouviu a menina se esgueirar e entrar na área proibida às crianças. Ela se afogou e a mãe só descobriu no fim da festa.

    Eu quase perdi a minha filha mais velha na manhã de Natal. O primeiro Natal dela. E ela quase morreu. Então sim, é uma eterna vigilância. E um eterno aprendizado. Que JAMAIS isso volte a acontecer com você, desejo do fundo do coração.

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      • Julia, sigo vc no feissy, e tenho certeza que professora mais dedicada e responsável que vc, não há.
        Espero que nunca mais nada assim te aconteça.
        Quando eu tiver filhos em idade escolar, adoraria poder deixá-los com alguém como vc.

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  2. uma vez fui à uma casa com piscina, aniversário do filho do meu primo, mil pessoas na casa, crianças on fayah pra entrar na piscina (que não dava pé pra nenhum dos dois) e um menino do tamanho do Iaco que sabia nadar, outro com colete/bóia de braço/whatever nadando. Virei as costas UM FUCKING segundo para dar refrigerante pro Iaco, e a Sofia simplesmente PULOU na piscina, sorte que tinham vários adultos, meu primo correu, socorreu, okay, não aconteceu nada, mas o susto foi suficiente pra ela não querer por nem a pontinha do pé o resto do dia na piscina. O pai não estava junto e a culpa obviamente foi minha, porque virei as costas um segundo para dar refrigerante pro outro. Logo eu, que não deixo eles andarem de ‘mão solta’ ‘porque alguém pode passar correndo e te levar embora’, que morro de medo deles se perderem na rua, no shopping, em qualquer lugar, por conta dessas histórias horrorosas de sumiço que a gente ouve todo dia. Claro que foi uma fatalidade. Até hoje não sei se a culpa foi minha. Até porque oriento, falo, converso mil vezes tudo. Como alguém disse, ‘shit happens’, mas pqp, a gente só vai lembrar o resto da vida desse dia que quase deu merda.

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  3. só posso te oferecer um abraço. nós, educadoras de crianças pequenas passamos sempre por situações como essas. eu sempre penso nas professoras da historia da piscina toas as vezes que uma criança se machuca mais sério. ossos do oficio!

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  4. Meu pai me perdeu no shopping. Eu tinha 5 ou 6 anos, parei pra olhar um brinquedo numa vitrine e ele não percebeu. O desespero nem me deixava lembrar onde ficava a loja em que minha mãe trabalhava. Subi e desci escadas rolantes, andei a esmo, até que dei de cara com o neón gigante e entrei correndo, o coração saindo pela boca!
    Meu pai demorou ainda um tempão até aparecer, mais branco que papel. Não sei quem estava mais abalado. Minha mãe ficou uma fera com ele, coitado!
    Por conta disso, morro de medo de perder algo ou alguém sob minha responsabilidade… Agora que sou mãe, então, piorei muito! Pânico descreve…

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