é meu!

ela é persona non grata em nove entre dez relacionamentos. curiosamente, segue deitada eternamente em berço esplêndido em nove entre dez relacionamentos. ninguém gosta dela mas, em algum momento, todos já usufruímos com prazer de seu poder destruidor: fosse uma bebida, ela seria a coca-cola. mal falada que só, ela continua figurando entre as mais vendidas ou, mais especificamente, entre as mais sentidas. tomando emprestado a definição de liberdade [à qual ela pode ser diametralmente oposta, vejam só] da cecília meireles, “não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. ela é, meine damen und herren, a posse [palmas que ela está entrando, prfv. vlw.].

não vou me dar ao trabalho me dedicar, aqui, a discutir o sentimento de posse, se ele é bom ou ruim, se pode ou não, se no contexto socio-histórico pós-moderno ocidental, às vésperas da copa do mundo, entre um post da TV revolta e outro [tenho cer-te-za que você, leitor@ amad@, não está compartilhando aquela demência, néaaam? se estiver, se esconde que se a teacher ju aqui descobrir, te deixa sem parque uma semana e chama teus pais pra uma conversinha, ok?] e em tempos de poliamorismo ela ainda faz algum sentido. deve fazer. me parece que é, como tudo na vida, uma questão de medida, do local onde você traça a fronteira que leva ao excesso e tals. enfim, seguindo.

há uns dias atrás percebi um sentimento bom nascendo dentro de mim, uma sensação de que tudo, apesar dos pesares, ia dar certo. comecei a produzir os relatórios das crianças e, uma a uma, fui escrevendo tudo o que eu achava importante dizer sobre aquelas pessoinhas. o que são, o que não são, o que podem vir a ser, o que aprenderam, o que não aprenderam, o que, plmdds, alguém tem que ensinar pra essas crianças. ainda que seja, de longe, uma das melhores formas de avaliação, sempre me sinto invadindo meus alunos com o direito que me foi dado de falar – usando as palavras certas, é claro – o que eu quiser sobre eles. talvez eu não ache que tenho tanto direito de falar sobre eles, no fim das contas. enfim, seguindo.

como eu andava escrevendo um relatório por dia, ia para a escola de manhã, voltava para casa e elegia uma criança para escrever sobre. depois, fechava a fabriquinha porque, pior do que escrever avaliações sobre seres humanos, é escrevê-las adotando o modo de produção capitalista de bens de consumo, então eu parava e fazia outro só no dia seguinte. meus alunos não são asics de mil cores, thank you very much. ao mesmo tempo que eu ia pensando sobre cada um deles, escolhendo as palavras, recuperando anotações antigas [toda sexta-feira eu sento e escrevo como foi a semana de cada um deles], lá na escola eu olhava para eles e sentia a tal mal-falada, que demorou a nascer este ano, mas chegou ao mundo linda e resplandecente como só quem nasce na hora certa chega: a posse. finalmente, em meados de maio eu passei a encontrar no coração um correspondente para a minha fala. são meus. meus. meus alunos, meus. sim, amig@s, a posse tem seu lado bom.

nossa vida tem ficado cada vez mais fácil e gostosa. a gente anda se curtindo mais e brigando menos, eu aprendi a lidar com cada uma das questões que cada criança apresenta e estou ficando mais esperta para garantir que todos eles se sintam celebrados e cuidados em todos os momentos que passamos juntos. eles também entraram em um ritmo bom, já conhecem todas as regras e combinados, já entenderam o que eu amo e detesto e estão mais abertos para que eu os movimente e sigamos em frente. tenho uma colega de trabalho que diz que a turma tem a cara da professora e passei a concordar com ela. vejo, nos meus alunos, um monte de hábitos meus. enxergo o jeito que eles se organizam, falam, andam e brincam e percebo que eles adotaram várias das minhas maneiras de fazer as coisas.

de uma hora pra outra, eles viraram meus e eu virei deles, no sentido de que a gente conhece e se movimenta de acordo com o movimento do outro, tal qual um jogo bom de amor. eles gostam das músicas que eu canto e eu gosto do jeito que eles as cantam, junto com as dancinhas engraçadas que a gente faz. eles entenderam a regra de ouro do meu método de ensino – quanto mais rápido a gente fizer xis, mais tempo a gente tem para brincar – e entendem, também, que três minutos de calmaria significam agendas feitas e próxima atividade começada.

eu também entendi que se a laura se sentar sempre perto de mim, consigo que ela preste atenção em tudo, assim como o ricardo precisa de muito carinho e qualquer coisinha que ele faça para me ajudar significa muito para ele. algumas meninas estão aprendendo a jogar jogo da memória e dominó, o que diminui consideravelmente o número de conflitos pelo pano azul brilhante parecido com o vestido da princesa elsa. o rubens já não derrama metade do tubo de pasta de dente no chão e a sara não interrompe todo mundo de dois em dois minutos.

a gente agora pertence uns aos outros e os nossos defeitos vêm com o pacote. sim, parte do sentimento de posse é acompanhada de um amor e carinho que compreende o outro com cada um das suas características, sem tirar nem por. quando outras pessoas falam deles, tomo o cuidado de sempre me posicionar ao lado deles, não contra, ainda que eu concorde com o que é dito: ‘sim, ela não consegue parar quieta, mas estou cuidando disso’. que alívio me deu, encontrar sintonia entre a minha função profissional e meus sentimentos.

hoje fiquei em casa para escrever relatórios, passei a manhã preocupada em saber se tudo estava bem, se não tinha acontecido nada grave com eles e, à tarde, recebi um e-mail da teacher lymda [minha assistente] dizendo que tudo tinha corrido bem, a despeito de uma suspeita de conjuntivite. ah, sim! parte da consciência do sentimento de posse vem também acompanhada da noção de que as coisas acontecem apesar de nós, ainda que achemos que não. ela também disse que eles passaram a manhã perguntando onde eu estava; mal sabem eles que eu também passei a manhã me perguntando onde eles estavam.

amanhã eu volto, a gente vai brincar, rir, brigar e discutir. esqueci de dizer que os girassois que a gente plantou estão crescendo. pelo visto, não só eles. yey!

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* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

 

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