efeito sanfona

o augusto tem mania de lamber a região ao redor dos lábios, que fica sempre avermelhada. há uns dez dias atrás, a situação estava bem feia e, em alguns pontos, as assaduras causadas pelo lambe-lambe chegaram até a ficar com casquinha.

hoje, na roda, o augusto estava sentado ao meu lado e percebi que, novamente, ele estava passando a língua ao redor dos lábios. pedi que ele parasse e, com a empáfia e a teimosia dos grandes imperadores, ele me respondeu:

– mas já melhorou-ou! [favor ler cantadinho como quando se conta vantagem]

– já melhorou mas se você continuar lambendo vai piorar de novo, né?, respondi.

ele parou e, logo em seguida, pensei na minha completa falta de autoridade para falar para o augusto parar com um hábito deliciosamente nocivo para ele. em bom português, este diálogo é um grandíssimo exemplo de ‘faça o que eu digo, não faça o que eu faço.’

passei a manhã pensando nessa história. a gente tem uma ideia muito torta de processo de aprendizagem, a começar por achar que ele tem um fim. ‘nada que não venha acompanhado de um diplominha nos vale’, pensei. e com isso a gente chega à idade adulta, tem filhos ou, no meu caso, pega emprestado os filhos dos outros e, do alto de nossa adultice, cobramos montes de coisas das crianças que esquecemos de cobrar de nós mesmos. ou até cobramos, mas sempre muito protegidos pela ideia de que já somos ‘adultos’.

coisa obtusa que é esta superioridade da idade adulta sobre a infância. é ela que faz com que cobremos processos de aprendizagem complexos de criaturinhas ainda muito simples e nos contentemos com pouco vindo de seres muito mais complicadinhos complexos. podem reparar: qualquer coisinha que um adulto faz a gente já diz ‘noooossa, mas já tá ótimo’, enquanto as crianças estão ‘em processo’ e ainda podem melhorar.

me parece meio injusto, não? que autoridade tem um pai que vive pendurado no celular para falar que o filho joga muito video-game? que autoridade tem a mãe da larissa para exigir que a filha coma frutas se ela mesma já me confessou que mal come uma banana? que autoridade tenho eu para pedir que o augusto pare de lamber os lábios quando eu fumo vários cigarros por dia?

indo mais longe: quantas vezes a gente já ~fez o augusto~, soltou um ‘já melhorou-ou’ e pouco tempo depois percebeu que o hábito ruim retornou? quantos hábitos sociais e afetivos nocivos para nós e para os que estão ao nosso redor retornaram, às vezes até com mais força, depois de um período de trégua, um período de ‘já melhorou-ou’? quantas vezes a gente já se prometeu que ia passar menos horas enrolando no facebook, ~vivendo~ e, quando viu, depois de dois ou três dias estava lá de novo, horas a fio olhando aquela deliciosamente nociva timeline azulzinha?

percebi que, baseado na minha autoridade, o augusto pode lamber sua boquinha até que ela fique em carne viva. quando se trata de aprender, somos todos um menininho sempre meio babadinho que gosta de carros, tem uma escova de dentes do cocoricó e conhece muito bem o poder bélico de um punhado de areia. nada mais justo que, então, ao cobrar melhoras de alguma criança, a gente cobre uma melhora em nós mesmos. só pra lembrar de quão difícil é. só pra não esquecer que nossa autoridade se esvai pelos ares como jatos de areia da mão do augusto.

mudar não é fácil, não é gostoso nem engraçado. é difícil pra burro. e eu, que cobro um monte de mudanças de um bando de crianças, hoje pensei que seria muito justo que para cada comportamento nocivo deles que eu exija mudanças, eu trabalhasse para mudar um em mim também. já comecei. estamos, eu e o augusto, ‘em processo’.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “efeito sanfona

  1. “Certo dia, pediu audiência a Gandhi uma mãe muito preocupada com o filho que comia muito açúcar e, por isso, tinha problemas de saúde. Chegando à presença do mestre, a mãe disse: “Grande alma, por favor, peça ao meu filho que deixe de comer açúcar. Eu já pedi tantas vezes, mas ele não me dá atenção. Confio que ao senhor ele atenderá”.
    Gandhi olhou para a mulher e depois o menino. Sorriu para ambos e disse: “Sinto muito, não posso. Voltem daqui a dois meses”. A mãe, num misto de incredulidade e desilusão, nada comentou e saiu levando pela mão o filho, que chupava a enésima bala do dia.
    Passados dois meses, a cena se repete. Porém, dessa vez o mestre olha o menino com firmeza e, tocando-lhe o ombro, aproxima-se do seu ouvido e lhe sussurra: “Pare de comer açúcar!”.
    A mãe, curiosa, pergunta: “Desculpe, mestre, mas por que hoje sim, e dois meses atrás não? O que mudou desde então?”. “Quem mudou fui eu”, respondeu Gandhi com sorridente naturalidade. “Há dois meses, eu ainda comia açúcar… não podia pedir a seu filho que parasse de fazê-lo”.

    Se non è vero…

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