super-colo

[primeiro, um mea-culpa: além de trabalhar na escola, eu faço mestrado. até aí tudo bem, porque o tal do mestrado começou antes do blog e ambos convivem em harmonia desde então. acontece que eu estou a um mês da qualificação e integralmente dedicada a escrever minha dissertação. ou parte dela. ou ‘o que der’. então, amigues que estranharam e perguntaram sobre a ausência de posts nos últimos dias, sinto muito, mas a batalha dos últimos e próximos tempos é a dissertação. o filosofinhas é um filho muito, muito amado, mas não é único. 🙂 ]

podem reparar [mentira, não podem não porque vocês não estão lá, né], quando tudo começa a dar errado, é porque eu não tenho pegado as crianças no colo o suficiente. se ~na faculdade a gente só aprende a teoria e é ralando que se adquire a prática~, eu, que nem teoria tive, desenvolvi uma série de métodos próprios para resolver todo e qualquer tipo de crise infantil na base da tentativa e erro. logo nos primeiros meses de trabalho descobri uma fonte inesgotável de sucesso profissional que, desde então, não falha. eu descobri que posso fazer qualquer coisa – QUALQUER coisa – com uma criança no colo. meu colo, modéstia às favas, é um super-colo.

então, neste ano da graça de 2014 em que eu tenho dezoito diabinhos crianças em sala de aula, meu colo anda mais disputado que vaga no estacionamento do ibirapuera domingo de manhã. e podem reparar [não, não podem blábláblá], quando eu estou com a cabeça em outro lugar e me esqueço que possuo um super-colo, nossa vidinha-mais-happy-que-a-música-do-pharrell começa a degringolar. ao longo dos anos, fui observando as situações nas quais eu pego uma criança no colo e percebi que fazer carinho é só mais uma das funções do super-colo: meu super-colo é ‘super’ também porque é multifuncional. ele chora, ri, discute, dá bronca, pede arrego, pede sossego, exige disciplina e, é claro, transborda carinho. hoje de manhã eu dei vários desses colos e resolvi, com o ricardo nos meus braços, que contaria aqui com quantos colos se faz um colo. a saber:

colo-padrão > é aquele colo de propaganda de shopping no dia das mães. colo de afeto, de carinho. funciona para compartilhar o amor e é rotina na entrada na escola, quando as crianças correm e pulam para se pendurar no meu pescoço.

colo-calma, cara > é o colo do choro no portão, da saudade da mamãe. é a minha maneira de dizer ‘olha, a mamãe vem te buscar logo, tá tudo bem, eu tô aqui com você’. eu sou o que tem pra hoje ou, pelo menos, pelas próximas horas e apesar da minha pequenez diante do que há de mais sagrado, a mamãe, me coloco de prontidão para suprir minimamente sua ausência. menos animado que o ‘colo-padrão’, o ‘colo-calma, cara’ é carinhoso e intenso.

colo-bicho, foi foda > o ‘colo-bicho, foi foda’ é um dos colos mais gostosos de se dar. acontece quando eu estou com tanto, mas taaanto orgulho da criança que palavras são insuficientes para exprimir meu sentimento. é dado quando algum deles consegue fazer algo pela primeira vez depois de muito tentar ou quando fazem alguma coisa que, a priori, eu achei que não fossem conseguir. em algumas situações pode ser substituído por um ‘high five’, mas não é a mesma coisa.

colo-sessão de terapia > quando uma criança apresenta repetidas vezes algum comportamento diferente do que costuma apresentar, é hora de pararmos e conversarmos sobre o que está acontecendo. é importante ressaltar, porém, que este colo é muito particular e só acontece quando ninguém está olhando para que a criança se sinta mais à vontade para falar e para eu não correr o risco de ter minha atenção dividida e soltar fases como ‘mas aí a mamãe tá trabalhando muito e não brinca mais com voc… EDUARDO, VOCÊ PODE POR FAVOR SOLTAR A ORELHA DO AUGUSTO?!’. costuma funcionar bem não só porque eu consigo compreender a origem do comportamento e planejar minhas ações a partir dela mas também porque é um dos momentos mágicos em que eu consigo fortalecer meu laço com a criança. é meu jeito de dizer ‘cara, me ajuda a te ajudar’. bônus: a criança se sente super bem de ter um momentinho a sós e costuma pegar mais leve comigo depois da sessão. também não custa R$ 400,00.

colo-alerta vermelho > é uma variação do ‘sessão de terapia’ mas, no caso, vem acompanhado da minha exigência de que, seja lá o que for, a criança tem que parar AGORA de fazer o que está fazendo. serve bem para casos de agressão física e/ou oral. como pode ser utilizado em casos de comportamento recorrente ou pontual, às vezes o one-on-one pode ser substituído por uma conversa ao pé do ouvido entre as outras crianças. ainda que, na base, se configure como o ‘colo-bronca’ [vide abaixo], ainda restam esperanças – minhas e da criança – de que ela vai parar com o comportamento, voltar para a atividade e fazer parecer que tudo não passou de um grande mal-entendido.

‘colo-bronca’ [a.k.a. ‘colo-chega, cara] > não restam esperanças. a criança já foi avisada umas quatro ou cinco vezes, já trocou de lugar na roda ou nas mesas, já passou pelo ‘colo alerta-vermelho’ e continua com o comportamento. é seguido de algum tipo de punição, via de regra ficar afastada dos amigos até que ela decida voltar, mas sem continuar com o comportamento. na maioria das vezes, depois de uns três minutos a criança fala que está preparada para retornar à atividade. em outros momentos, depois de uns cinco eu pergunto se ela já está preparada para voltar e, pasmem, algumas dizem ‘não, não tô.’. acho hilário quando elas resolvem que não estão preparadas, parece alcoólatra em recuperação recusando convite para festa, um ‘se eu for, não vou conseguir me controlar.’

‘colo-cara, me dá um abraço’ > esse é pra mim. serve para quando eu não estou tendo um bom dia ou ficando muito irritada e preciso lembrar que dezoito vidinhas dependem de mim naquele momento. com uma criança no colo, eu fico mais calma e meço melhor minhas atitudes. o carinho dela e os olhinhos pertinho dos meus é um alento. para os espertos, é também a melhor maneira de descobrir quem são ~meus preferidos~, já que é a eles que eu recorro nestes momentos. não por acaso, ano passado a beatriz e a rafaela tinham lugar cativo no meu colo, mesmo quando meus braços já estavam pedindo arrego.

‘colo-UTI’ > na base, serve para cuidar de ferimentos em geral. muito utilizado no parque e seguido dos pares gelo+hirudoid ou spray+band-aid. é um colo estranho, ao mesmo tempo apressado e calmo: andando rápido, eu também estou transmitindo calma para a criança e a garantia de que vou cuidar dela da melhor forma possível, principalmente quando rola sangue na parada, o que para elas é assustador. à medida que a criança vai se acalmando e sentindo menos dor, o colo vai ficando mais frouxo. a melhor parte do ‘colo-UTI’ é quando ele se torna desnecessário.

‘colo-vaga’ > não fede nem cheira, só é usado mesmo quando não tem lugar pra todo mundo onde a gente está. um no meu colo é um espacinho livre a mais no chão, apenas, e ganha esse colo quem está mais perto de mim no momento. ‘chega mais, chapa’.

acho que é isso, por enquanto. se eu lembrar de mais algum, volto a este post e o adiciono à lista. a parte mais interessante da observação dos colos ao longo do tempo foi perceber que eu também os usava para coisas sérias, para dar bronca, exigir montes de coisas das crianças. é raro uma criança recusar meu colo, mesmo que ela saiba que vai levar um pito daqueles entre os meus braços; mas talvez, só talvez, eles logo aprendam que por maior que seja o pito, eu tô ali com eles, para o que der e vier, e que se depender de mim, eles nunca vão cair.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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4 opiniões sobre “super-colo

  1. Ah!!!! Lindas considerações sobre um carinho tão gostoso Fe, “colos” e desta maneira tão diversificada de significados importantes para ambas…. Que troca prazeirosa e muito gratificante. Aguardo, se tiver, os próximos. Um beijão !!!!

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