império romano, revisited

em um grupo de dezoito crianças em que pelo menos doze ao invés de passar pela fila da delicadeza, passaram duas ou até três vezes pela da agressividade antes de descer à terra, passar nove meses dentro da barriga de suas respectivas mães ouvindo, ao longe, longas discussões sobre a forma mais saudável, conveniente ou que renderia um melhor post no facebook de sair daquela bolhinha de água morninha open-bar de atenção e alimento, passar da fralda RN para a P, a M, a G, a GG e, finalmente, confiar [ainda que não integralmente] em sua própria capacidade de controlar seus buraquinhos corporais, ter suas matrículas na ~escolinha~ efetuadas, sobreviverem ao primeiro, ao segundo e ao terceiro para, finalmente, chegarem ao quarto ano de suas trajetórias escolares, é de se esperar que um sem número de conflitos verbais e/ou físicos aconteçam diária e sistematicamente. natural um porre que seja assim, tanto pra você quanto pra mim.

por conta desta maneira, digamos, no limite da civilidade de viver, as conversas sobre agressões físicas que eu proponho acontecem tão diária e sistematicamente quanto as próprias agressões. discussões acaloradas, brinquedos arrancados das mãos alheias, empurrões nas escadas, tapas e uma ou outra mordida são trazidos à tona junto com uma série de considerações sobre a capacidade de falar, pedir para parar, conversar, chamar a teacher, a outra teacher, qualquer adulto que esteja por perto, não importa. ‘então vamos combinar que não pode ___________ [tipo de agressão qualquer]?’, digo. ‘vamos!’, ‘tá!’, ‘siiiiim!’, eles respondem. invariavelmente, o augusto levanta a mão para expor o que, para ele, se configura como a maior agressão de todas, o crime inafiançável da primeira infância, o atestado de que a humanidade falhou, o progresso não existe, a crueldade infantil é um fato e que as novas gerações são inúteis:

– teacher, também não pode jogar areia no olho do amigo. 

a emenda pessoal do augusto à ‘declaração dos direitos do homem e do cidadão’ é acompanhada pelo apoio unânime de todos os seus colegas. ‘não pode jogar areia no cabelo’, diz um, ‘nem na camiseta’, diz outra. ‘não pode jogar areia na ponte’ [no parque tem um daqueles brinquedões com escada de um lado, cano pra descer, ponte, casinha e escorregador do outro lado], diz outra criança estendendo a proibição à ‘declaração dos direitos dos brinquedos e dos nossos objetos queridos’. se eu deixar rolar, sem intervir, a conversa pode chegar a cinco ou dez minutos, já testei. para os meus alunos, não há tapa, empurrão, mordida, soco, pau de arara ou choque elétrico que se compare a jogar areia no amigo. jogar areia, para nós, é caso sério.

fosse a moral dos meus alunos rainha de todas as coisas, a areia seria o recurso natural mais valioso do mundo, fonte de guerra e paz, prosperidade e falência, ambição e vaidade. não haveria petróleo, água potável ou jazida de ouro capazes de despertar o interesse humano frente às grandes faixas de rochas transformadas pelo tempo nos minúsculos grãos que intermedeiam terra e água. areia seria motivo de conflitos diplomáticos, fonte de interesses econômicos e profundas desigualdades sociais. enquanto países com grandes faixas litorâneas vivenciariam a fartura, estabeleceriam impérios e dominariam a economia mundial, aqueles com poucos recursos arenosos estariam condenados à meia-vida e à dependência das grandes potências.

fosse a moral dos meus alunos rainha de todas as coisas, a areia seria motivo de guerra, é claro. a indústria bélica, porém, não precisaria se dar ao trabalho de desenvolver armas de fogo ou bombas: bastaria saquinhos com areia dentro para jogar no inimigo. bombardeios não seriam necessários, também. bastava caminhões despejarem toneladas de areia em cima das cidades ou lavouras para colocar fim à possibilidade de sobrevivência na área. é claro que, estando a área cheia de areia, esta também poderia ser novamente ensacada e reutilizada contra o inimigo: a grande vantagem da areia acima dos fuzis e metralhadoras é que se trata de uma arma renovável, quase ecologicamente correta.

fosse a moral dos meus alunos rainha de todas as coisas, o desembarque na normandia teria sido muito mais simples. vindos do mar, os aliados teriam amarrados em seus corpos sacos de areia molhada para jogar nos alemães, que estariam exterminando judeus, homossexuais, testemunhas de jeová e demais inimigos do nazismo nos campos de concentração fazendo-os comer areia, talvez. ou jogando no olho, diria o augusto. nada como o poder e a dor de um punhado de areia molhada batendo no rosto; os alemães teriam se rendido horas antes, caso a guerra tivesse chegado ao ano de 1944. fosse areia a principal arma, a segunda guerra mundial teria acontecido de 1939 a 1941, se muito. é só comparar a faixa litorânea alemã à inglesa e à francesa, oras.

fosse a moral dos meus alunos rainha de todas as coisas, a areia seria também fonte de energia. ao invés de hidrelétricas, teríamos arenolétricas, grandes mecanismos que movimentariam a areia e gerariam energia elétrica para todos. país rico seria país com areia. creio que, nesse caso, caranguejos já teriam sido extintos e as tartarugas marinhas, se prudentes, teriam encontrado outro ambiente para enterrar seus ovos, mas não me perguntem onde. no brasil, sairia a petrobrás e entraria a areiobrás. estaria a zona sul do rio fadada a se tornar uma grande arenolétrica? com certeza a diária no copacabana palace seria mais em conta, como em um daqueles hotéis perto da rodoviária. creio que morar no leblon também seria um tanto desagradável: as novelas do manoel carlos se passariam no méier, ali sim a helena poderia viver sua vida de luxo, drama e conflitos emocionais.

fosse a moral dos meus alunos rainha de todas as coisas, não haveriam praias tais quais as conhecemos: nada de lagartear, pingar sorvete e grãos de milho cozido e fazer castelinhos nesta que seria a grande fonte de riqueza do país. há de se respeitar as coisas, afinal. os verões seriam na amazônia, já que lá não teria nada de muito útil [ao menos em comparação ao nordeste]. ‘adeus, praia do rosa’, ‘adeus, ferrugem’, ‘adeus, balneário camboriú’, diriam dolorosamente os gaúchos endinheirados que se transferem para santa catarina no verão.

fosse a moral dos meus alunos rainha de todas as coisas, sairia o PT e entraria um menininho de 4 anos que, como o próprio nome que eu lhe inventei já diz, seria um grande imperador por conta de sua capacidade visionária de compreender o poder destes grânulos insuportáveis que insistem em grudar no estofado do carro. quem diria.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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4 opiniões sobre “império romano, revisited

  1. Júlia,
    temos o mesmo nome, não estamos muito distanciadas em idade e a mesma profissão (há mais ou menos o mesmo tempo!). engraçado, também comecei sendo professora numa escola bilíngue sem querer exatamente ser professora – caiu no colo, abracei e ficou. depois fui pra um curso livre justamente por ter me “especializado” em crianças e, embora dê aulas para todas as idades, sou a professora preferencial das turmas de crianças. já aconteceu de chefes minhas e professoras mais experientes me pedirem dicas. isso é tão bizarro, mas feliz.
    desde que comecei a trabalhar com crias aprendi muito mais sobre a humanidade e mim mesma do que, sei lá, lendo filósofos mortos e chatos. eles são um baita aprendizado. é ótimo ler alguém que entende e compartilha dessa impressão.
    beijos e parabéns pelo ótimo blog.

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  2. Acabo de receber o “Relatório educacional” de “X”:
    “…às vezes temos que orientá-lo, pois ele bate nos amigos quando quer o brinquedo que o outro está usando, ou por qualquer outro motivo que o contrarie. Estamos conversando bastante com X e pedindo que ele não bata nos amigos e que chame as professoras para ajudá-lo a resolver os conflitos…”
    Então não é só ele?!?!? Amém, aleluia!
    E olha que ele nem joga areia!!! (Ou ainda não a descobriu. Amém, aleluia, 3 vezes!!!)

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