um certo alguém

há alguns posts atrás, falei sobre a relação protocooperativa que a laura estabeleceu com a marta. me derruba ver a primeira tão dependente da segunda, fazendo tudo o que ela faz e a seguindo para onde for. certo. agora uma pitadinha de vida real, algumas milhares de horas depois e chegamos ao formidável dia de hoje:

laura chegou um pouquinho atrasada com o pai e todos já estavam na aula de educação física, inclusive a marta. laura fez uma manhazinha para entrar e não soltava de jeito nenhum as pernonas do pai, com a cara enfiada em seu joelho. fiz aquela cena básica de ‘vamos lá, laurinha, a gente vai brincar bastante [mentira, hoje a gente brincou só meia hora e eu já sabia que ia ser assim. mwuah.] hoje!’. nada. perna, cara, joelho, pai. então, inconscientemente – todos lemos pelo menos uma coisinha do freud, né? – o próximo argumento que eu usei foi:

– vamos pra aula de educação física, a marta tá lá!

vocês viram o que fiz, né? vocês. viram. o. que. eu. fiz. né? eu usei a relação mezzo fofa, mezzo doente que a laura estabeleceu com a marta a meu favor, fazendo a menina largar as pernas do pai automaticamente, segurar na minha mão e saltitar em direção à quadra, preservando a boa imagem que o pai dela tem de mim! me matem!

daí que eu já usei os defeitos dos meus alunos a meu favor antes. usei meu aluno mais bravo e indignado de 2012 para ir reclamar da zona que uma outra sala tinha deixado no parque, ainda que sua braveza e indignação me atrapalhassem um bocado vez ou outra. a rafaela, ano passado, com seu cabelo sempre penteado e arrumado e jeito de mulherzinha, me servia de modelo para as meninas que não queriam fazer rabo de cavalo de jeito nenhum na hora do parque e saiam de lá parecendo uns mini-valderrama. dia desses pedi que o ricardo, que não para de falar um segundo, transmitisse um recado para a professora da sala ao lado.

essa história ficou martelando na minha cabeça a manhã inteira. seriam alguns de nossos defeitos inventados? seria o conceito de defeito ligado mais à ideia de compatibilidade do que de falha? é claro que a relação ali é nociva pra laura, que não aprende nunca a andar com as próprias pernas. mas os pequenos passinhos que ela dá até a escola todos os dias não acontecem também porque a marta existe? não seria a relação delas, de uma maneira meio torta, benéfica para a laura?

e quem há de dizer que nossos próprios passinhos já não foram motivados por alguém? que autoridade tenho eu para falar mal da relação laura/marta quando eu, eu mesma, sento ao lado da mesma pessoa em todas as reuniões pedagógicas? quem nunca pulou da cama para ir para a escola, para o trabalho ou qualquer outro lugar porque encontraria com um certo alguém? um amigo. um amor.

não sei como eu vou continuar lidando com as duas. meus olhos de professora louca enxergam ali um monte de problemas e a laura precisa largar as muletas para amadurecer e criar o mundo com suas próprias mãos. mas hoje, talvez só por hoje, eu olhei para as duas juntas na hora do parque com mais ternura.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “um certo alguém

  1. num primeiro momento, eu acho que você é muito esperta por conseguir usar essas coisas ao seu favor. psicologia infantil é tudo pros teacher num pirá. num segundo, eu diria que ler o que freud tem a dizer sobre a sexualidade infantil pode te ajudar a responder várias perguntas sobre seus aluninhos (pra mim, 50% da vida foi esclarecida quando minha professora falou sobre isso na aula de intro à psicanálise), mas que (nãoli) melanie klein é mais contemporânea e pode ser nicer.

    e, de uma forma pragmática, te desejo sorte na sua empreitada marta-laura. =D

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