‘cause I’ve got one hand in my pocket, and the other one is ‘mano, que isso?!’

diz o site do victoria and albert museum que, no século XVII, pequenas bolsinhas eram costuradas na parte interna dos vestidos para que as mulheres pudessem carregar pequenos e necessários objetos do dia-a-dia, chamadas de pockets. algum tempo depois, pockets passaram a ser costurados junto às roupas masculinas, configurando o bolso qual o temos hoje. em origem, portanto, os bolsos se assemelhavam ao que atualmente chamamos de handbag, clutch ou, para os leigos, aquelas micro bolsas que as mulheres só usam em casamento ou na cerimônia de entrega do oscar.

o que cabe naquela bolsinha? só o estritamente necessário: batom, celular, cartão, RG, absorvente. nada, nada mais do que o mínimo. o resto, a gente deixa pra bolsona do dia-a-dia, a que tem alicate de cutícula, agenda, livro, cartão fidelidade da sorveteria, chaves [carrego, pra cima e pra baixo, as chaves da casa de um amigo que eu usei há uns seis meses pra alimentar seus gatos enquanto ele viajava e nunca mais, vejam só], canetas, carregador de celular etc.

respeitando a origem do termo, portanto, os bolsos deveriam servir para que carregássemos alguns pequenos objetos de uso imediato, tal qual bilhete único, dinheiro pro pão, cartão do banco, celular, ___________ [insira aqui a coisinha óbvia que você carrega no bolso e eu não listei acima]. mas nós, professoras de educação infantil, ressignificamos o termo, atribuindo ao bolso uma outra função: além de objetos úteis, os bolsos das minhas calças também servem de depósito. um mini-sótão, é o que eu tenho grudados às laterais e à parte traseira das minhas calças.

saindo da escola hoje, comecei a tirar os cacarecos que, em 4 horas, consegui reunir nos meus bolsos. tudo bem que comemoramos um aniversário, o que sempre torna tudo um pouco mais confuso e garante aos bolsos a função sagrada que é garantir minha liberdade manual, mas nada muito diferente do que acontece quase todos os dias. eis a lista:

– elástico de cabelo amarelo que não me pertence [inútil, tenho uma vaga lembrança da marta enfiando ele ali];

– forminha vazia [amém] de um brigadeiro que eu não comi [inútil, sabe-se lá quem usou meu bolso como lixinho];

– isqueiro que eu usei para acender a vela do bolo [extremamente útil, nada recomendável circular pela escola com um objeto inflamável no bolso, mas, como eu disse, as coisas são mais confusas em dia de festa];

– meu planejamento dobrado 40 vezes [altamente inútil porque eu sempre o sei de cor e salteado];

– lista de alunos que iam embora com a mãe da aniversariante para continuar a celebração na casa dela [semi-útil, sabia a lista de cor, mas emprestei pra moça do portão para que ela também estivesse ciente da função excursão];

– uma coroa de papel em bom estado da barbie sereia [inútil, não sei de quem era e a lívia, última a ir embora, pegou pra ela];

– um resto de uma coroa de papel da barbie sereia [inútil, lixinho];

– pequeno peixe elétrico de plástico [inútil, peguei da mão do eduardo na hora da saída, que quase levou nosso peixinho pra casa sem querer];

– R$ 2,60 [útil, usei pra comprar uma coca zero quando fui embora].

entra ano, sai ano, sempre me surpreendo com as coisas que encontro nos meus bolsos no fim de cada dia. seja pela função sagrada de libertar minhas mãos ou por outras um tanto profanas, como funcionar como lixinho temporário, todos os dias meus bolsos contam uma história. um papel de band-aid, um recado de pais, um anelzinho, uma bala, um lenço de papel sujo, uma canetinha, um brinquedo ou um desenho dobrado são pequenas memórias cotidianas que encontram abrigo temporário nas pequenas aberturas de tecido costuradas às minhas calças.

através do útil e do inútil, esvaziando meus bolsos depois de me despedir de todo mundo, hoje descobri que meus bolsos também carregam pedacinhos da nossa vida.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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