tá.

essa mocinha aqui é um poço sem fim de boas histórias. uma personagem esférica, cheia de nuances, qualidades e defeitos convivendo com a mesma intensidade, quiçá com alguma harmonia. bueno. quando ela não está cantando ‘show das poderosas’, rindo de mim por nenhum motivo aparente ou fazendo gracinhas e micagens que arrancam sorrisos até do senhor mau-humor [chegaremos a ele qualquer dia desses], ela é muito, muito, muito teimosa persistente. ela também tem um defeito gravíssimo: ela é estrutural e fisiologicamente dependente da marta.

marta espirrou? laura espirrou.

marta quer fazer xixi? laura quer fazer xixi.

marta comeu mamão? laura, que malemá mordisca uma banana, come o tal do mamão, igual ao da marta.

marta está brincando com outra criança? laura tenta se enfiar na brincadeira de qualquer jeito. quando não consegue, chora e pede para eu falar para a marta que a laura gosta dela. ‘maaaarta, a laura gosta de você!’. marta faz um meneio com a cabeça e volta à brincadeira. mais choro.

hoje a laura somou sua persistência à adoração pela marta. argh. começou que a laura não conseguiu um lugar na mesma mesa que ela [as mesas são reunidas em grupinhos de quatro] e teve que sentar com os mortais sem graças e feios que não são a marta. começamos a desenhar e, enquanto a marta, concentrada, escrevia seu nome na folha e começava a desenhar, dona laura reclamava da cadeira, dizia que não queria escrever o nome, que não sabia [ela sabe], que era para eu escrever para ela. ‘hahaha, não, escreve você.’

nessa sessão de enrolação, dona marta escreveu seu nome, desenhou uma baleia, pintou com aquarela, bateu papo com as amigas mortais com graça e bonitas que não são a laura. quando ela terminou a atividade, a laura ainda tinha que começar a pintar. ‘terminou, marta? pode ir pegar um livro, tá?’. e lá se foi a marta. ‘teacher, eu teIminei também!’, disse a laura. ‘QUE?’, repliquei. ‘esse borrão de tinta aí é a sua pintura? desculpa, laura, mas você não terminou, não. pode ficar no seu lugar e pintar seu desenho.’

desnecessário dizer que a laura sabia que não tinha terminado, o que ela queria mesmo era ir ficar com a marta. enquanto nos momentos livres eu não tenho muito controle sobre essa dinâmica [não vai ser eu quem vai chegar na laura e mandar ela ir brincar com outra criança no parque, pelamor, né?], nos momentos de atividade eu tenho sim. nada como o mínimo poder para encher a cidadã de coragem para segurar a onda que veio a seguir.

a laura começou a chorar. implorava para sair da cadeira, dizendo que já tinha terminado. ‘não, laura, você não terminou, tem um monte de espaço em branco no seu peixe’. ‘eu teImineeeeeei’, ranho, lágrimas. ‘laura, a marta terminou a pintura dela, quando você terminar a sua você vai ver os livros com ela.’ sai da cadeira, vai até a marta. pego sua mão e a conduzo de volta para a cadeira. se joga no chão. ‘nãããão teacheeer, eu teImineeeei’, ranho, lágrima. ‘laura, você precisa terminar seu desenho, aí você vai. a marta tá ali, você termina e vai ler com ela.’ ‘nããããããão’, mais chão. chão. chão. a levanto do chão e a sento na cadeira. ‘tá bom, teacher, eu vou teImina’, pega o pincel, pincela dois borrões, ‘poInto, teIminei’, se levanta.

‘laura, meu amor, você ainda não terminou.’ ‘EU NÃO GOSTO MAIS DE VOCÊ, TEACHER JU’. ‘tá. mas você ainda tem que terminar sua pintura, como a marta.’ mais duas pinceladas e ‘poInto, acabei’. ‘agora tá bom. pode ir pegar um livro com a marta.’ é claro que não estava nada bom. ela não terminou a pintura.

mas por alguns minutos, me odiando, a laura entendeu que viver à sombra da marta, fazendo tudo o que ela faz, não a libera de fazer as coisas por si mesma, e esse é seu maior desafio. é claro que não me agrada que ela tenha me dito que não gosta de mim. mas me desagrada mais ainda vê-la, diariamente, seguindo passos que não são dela. engoli minha frustração e ‘tá.’

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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4 opiniões sobre “tá.

  1. Oi Júlia, eu sou a Bel. Sou amiga da Camila (Pavanelli) e cheguei aqui no seu blog por meio dela. Adoro as coisas que vc escreve e, sei lá, hoje deu vontade de te dizer que adoro as coisas que vc escreve. E essa história da Laura e da Marta, que amor.
    (mas cuida da Laura, mesmo que isso signifique ouvir mais vezes que ela não gosta de vc. Ela vai gostar depois.)
    beijo pra vc

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