e se eu morresse amanhã?

[contei essa história no facebook em meados de outubro do ano passado. desnecessário dizer que ela é verídica, assim como todas. não passa um dia sem que meu coração, em algum momento, encontre essa menina.]

para o rogério

através de um sonho, hoje a beatriz descobriu que sua mãe é mortal. chorando ela me contou que tinha sonhado que sua mãe tinha morrido. chorando ela me contou que sua mãe tentou lhe explicar que só vai morrer quando for bem velhinha. chorando ela me contou que não quer que a ‘mamãe, nem o papai, nem a minha irmã, nem meus amiguinhos, nem ninguém na terra morra nem quando forem velhinhos’. sim, trata-se aqui de uma pessoinha exigente.

não me ocorreu nada além de recebê-la nos meus braços e deixá-la no meu colo pelo tempo que fosse necessário. pelo tempo que, para ela, fosse necessário. não me ocorreu mentir e falar que nem velhinho morre para confortá-la temporariamente. não me ocorreu assustá-la com o fato de que pessoas novas morrem. crianças morrem. me ocorreu, apenas, dizer a ela que falta muito, muito tempo para que os amores da vida dela morram, rezando pra que ela não me perguntasse sobre a morte de pessoas novas. de crianças. e se eu morresse amanhã?

fiquei com ela no colo por alguns minutos até que ela parasse de chorar, bebesse um copo d’água, comesse um pedaço de bolo e convidasse a rafaela para brincar de princesas bailarinas na hora do parque. ‘e chorou, chorou e tanto que seu pranto já secou’.

a verdade é que a possibilidade de que as pessoas que mais amamos possam morrer a qualquer momento é dolorosamente real. para uma criança, devastadora. sim, vamos todos morrer, vamos todos morrer. e, pelo visto, só nos resta aproveitar o tempo que nos resta dando uns abraços, comendo bolo e brincando de princesas bailarinas no parque.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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5 opiniões sobre “e se eu morresse amanhã?

  1. Eu li seu blog ontem, por conta da indicação do bruno natal (do Urbe, que viu não sei onde também) e fiquei maravilhada com o texto sobre a família do Campos e a tristeza mais triste possível de se perder alguém tão próximo e ora essa, tão vivo.
    Coincidência ou não, me deparei aleatoriamente com esse seu texto e descobri que sou uma criança grande, como a Beatriz. Me lembro da primeira vez que tirei minha mãe da cama com o choro copioso por conta da morte de ninguém. E até hoje choro. Anos de terapia. E choro. Igreja, pai de santo, terreiro, vela. E choro. A vida é cruel. E meu medo de perder quem amo e de morrer é igual ao de uma criança. Pra sempre será, eu acho.

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