algumas considerações sobre papai noel, maurice sendak, beijo gay e escovar os dentes

[uma salva de palmas para a louca e livre associação, por favor: clap clap clap. obrigada.]

agora vamos ao que interessa >

ontem, esse tweet da @fministacansada apareceu na minha timeline, eu ri pra burro e, claro, compartilhei:

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na hora eu lembrei de alguns absurdos que a gente lê naquela latrina pós-moderna chamada ‘caixa de comentários’ do tipo ‘não quero que meu filho veja essa pouca vergonha’, ‘pode ser gay, mas se beijar na rua já é vandalismo’, ‘a criança não entende’, ‘como eu vou explicar pro meu filho’, blábláblá preconceitopreconceitopreconceito blábláblá, o que logo me lembrou deste textinho genial que circulou por aí no fim do ano passado:

“how will i explain gay couples to my children”

if you can explain to your children that an immortal man in a red suit who lives in the north pole travels around the entire world on one night every year on a sleigh carried by magical flying deer i think itll be easy enough to tell them two people are in love

deixa eu facilitar aqui: não explica. não precisa explicar. não precisa procurar as palavras certas, se encher de dedos e dúvidas. economiza as explicações pra dar quando seu filho estiver ferrado em matemática no 8º ano, pra quando ele tiver uma prova sobre josé de alencar e não tiver passado da página 17 do ‘o guarani’, sei lá. é só contar, numa boa, com tranquilidade, sem transferir seus grilos e preconceitos pra criança. sem transferir seus grilos, anote. explicar porque as pessoas morrem é que é porreta, duas pessoas do mesmo sexo apaixonadas é paçoquinha!

um dos melhores conselhos que eu já recebi sobre como lidar com crianças veio do maurice sendak, autor de livros infantis norte-americano que, entre outras preciosidades, escreveu ‘onde vivem os monstros’, aquele livro com uns monstros enormes e um menininho de pijama, o max, que foi lindamente adaptado pro cinema pelo spike jonze. um pouco antes do maurice sendak morrer, o spike gravou uma longa entrevista com ele em que ele conta toda a história de como se envolveu com literatura infantil, sobre a vida que levou [informação irrelevante, mas muito, muito legal: o maurice sendak era gay assumido, foi casado mais de 30 anos com um psiquiatra, o eugene] e sobre sua relação com crianças. esta entrevista virou um documentário da HBO chamado ‘tell them anything you want: a portrait of maurice sendak’, que em tempos mais gloriosos esteve disponível na íntegra no youtube. procurei, procurei pra linkar aqui, mas só encontrei uma parte [quem achar e postar na nossa caixa de comentários do bem ganha uma caixa de paçoquinha e meu amor eterno]:

https://www.youtube.com/watch?v=mZTQib7G2Hs&list=PLRvgiRuqdW6Cojo4HKwhoU3sQ-ddUY06X&index=3

enfim. neste documentário o sendak fala uma coisa linda ao ser perguntado sobre a crueza com que ele trata alguns assuntos delicados em seus livros [‘my brother’s book’, que é sobre um menino que tenta salvar seu irmão do monstro da morte e é inspirado na própria história do maurice com o irmão que morreu ainda pequeno é um exemplo disso, é bem triste]:

‘I don’t believe in children, I don’t believe in childhood, I don’t believe in ‘you have to tell them this, you have to tell them that’. you tell them anything you want, if it’s true. if it’s true, you tell them.’

bazinga! é muito mais simples do que parece, quando não vem carregado de preconceito e estranhamento, é claro. contar a verdade, não subestimar a capacidade de uma criança de compreender o mundo que a cerca é das coisas mais lindas e delicadas que se pode fazer por ela.

e isso tudo aí me lembrou de um dia no ano passado que os meus alunos estavam escovando os dentes e batendo papo e eu só fiquei ouvindo a conversinha linda deles:

– menino usa brinco. 

– é, e menina pode ter cabelo curto!

– e sabia que tem menina que namora menina?

– menino também pode namorar menino! 

– é! pode namorar quem quiser!

– é. 

eu fiquei tão, mas tão feliz de ouvi-los falando essas coisas, falei que eles estavam muito certos, que era tudo verdade e dei beijinho em geral, mas na verdade o que eu queria mesmo era ter dado um beijinho em cada um dos pais deles. seus lindos! ❤

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