every time we say goodbye

hoje eu teria acordado às 6h30, teria pego o 857P-10, teria chegado na escola e subido até a nossa sala para largar minha bolsa atrás da pastona cinza que fica ao lado do armário, deixar seus copos na mesinha da esquerda, pegar a cestinha azul das agendas e descer as escadas para encontrar alguns de vocês já sentados no banco verde perto do portão segurando seus brinquedos. eu teria dado um beijo nas suas testinhas, nós teríamos esperado por mais algumas crianças e ido até a sala onde, com peninha de vocês por terem se esforçado tanto durante a semana, eu abdicaria da roda e do calendário e deixaria vocês brincarem até a hora da aula de português.

mas hoje eu acordei às 8h, quando eu já deveria estar no banco beijando suas testinhas, tomei café enquanto vocês estariam brincando, passeei com os cachorros durante a aula de português. nesse momento, eu estaria toda ‘cadê o pedro, cadê o luiz, plmdds, não tem sexta-feira que esses meninos não falteeeeeem!’ ao mesmo tempo em que estaria escrevendo nas suas agendas e pedindo os ingredientes da aula de culinária que eu nunca, nunca lembrei de pedir no dia certo. hoje, porém, eu não precisei pensar no pedro, no luiz, em farinha, maço de hortelã ou na minha negligência culinária, talvez por isso tenha lembrado de marcar depilação com [pasmem] vinte e sete horas de antecedência: good job pra mim.

nós teríamos ido para a biblioteca e eu teria me irritado com a repentina vontade epidêmica de ir ao banheiro, o ‘festival da voltinha’ como eu apelidei, apesar de todos os meus pedidos, súplicas e ladainhas pra vocês fazerem xixi antes de eu começar a ler o livro. ‘one at a time, please’ seria minha derradeira solicitação, aquela que vocês cumprem direitinho. eu teria enfiado vocês, seus pais e seus irmãos de algum jeito na história e vocês ficariam half pasmos [‘tá escrito isso mesmo, teacher?!’], half inebriados de tanto rir com a presença do irmãozinho da rafaela entre os sete anões e o pai do felipe comendo macarrão caído do céu no meio do ‘tá chovendo hambúrguer’. eu me divirto tanto, mas taaanto fazendo isso, é tão melhor do que os dois minutos do programa da fátima bernardes que eu assisti hoje que, olha… o que as pessoas fazem quando não estão cuidando de vocês?

enquanto eu ajudava minha mãe com umas arrumações de fim de ano, vocês estariam fazendo micagens e cara de nojo para o suco de acerola na hora do lanche que, há pouco, eu descobri que vocês amam, mas não tanto quanto amam tirar sarro da minha cara. vocês passaram OITO meses da sua vidinha fingindo odiar suco de acerola só pra me provocar, sabe? oito meses. no almoço vocês bebem o suco como se fosse coca-cola em festa de aniversário porque não sou eu quem dá o almoço, então eu não vejo o momento sublime no qual a zoação dá lugar à dose cavalar de vitamina C da qual eu falei tanto e vocês não deram nem tchum.

no parque, vocês estariam mais comedidos, no canto de vocês, porque sexta-feira é o dia que a gente divide o espaço com os de cinco anos, que são vocês amanhã, mas de quem vocês têm medinho porque eles parecem tão maiores e poderosos e já perderam toda e qualquer lembrança de que um dia foram bebês, enquanto em alguns de vocês sobrevive uma pancinha, furinhos nas mãos e bochechinhas que lhes qualificam para aparecer dormindo dentro de uma abóbora numa foto da anne geddes. é o dia que eu presto mais atenção em tudo que acontece, como se meu olhar pudesse protegê-los de algum golpe ou de um salto mal-calculado daquelas crianças grandonas com pernas de flamingo e barriga retinha.

enquanto eu tomava banho pra fazer umas coisas na rua, eu estaria guardando seus brinquedos, invariavelmente esqueceria quem são as donas das oito, nove barbies que eu teria nas mãos e correria até a quadra interrompendo a aula de educação física para descobrir em que mochila colocar a barbie borboleta, a barbie rapunzel, a barbie peladinha com o cabelo embaraçado. no fim da aula, eu teria mandado parte de vocês para o almoço [pra malandragem se embriagar com suco de acerola] e outros pra casa, ‘bye, bye, see you on monday!’ e só em dezembro eu lembro que o conforto das sextas-feiras só existe mesmo porque existe, também, o conforto da segunda-feira. um dia vocês vão aprender que tem gente que odeia segunda-feira.

e hoje eu fiz montes de coisas, amanhã vou tomar sorvete com a camila, qualquer dia desses vou sair pra comprar presentes, vou comemorar o natal, comemorar o reveillón e ter muitos dias de férias ao longo dos quais eu vou acabar esquecendo algumas das nossas piadinhas, do nome da vó e das babás de vocês, quem era o dono do copo do ben 10, quem fez alguns dos desenhos que vocês me deram ao longo do ano e agora estão na minha casa, quem não come requeijão, quem não come manteiga. isso porque minha vida vai ser diferente, eu vou encontrar outras pessoas, alguns ‘adultos’ que vocês achariam engraçados e eu queria tanto que vocês conhecessem, talvez daqui a um tempo eu consiga assistir uns dez minutos do programa da fátima bernardes sem chiar, talvez eu vá a um bar numa terça-feira à noite e só deus sabe quando foi a última vez que eu fiz isso.

por ora, sigo estranhando todo o tempo e toda a energia que me são subitamente oferecidos e eu nunca sei onde investir nos primeiros dias sem vocês.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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