o heroi de mil faces

“ai, então ju, eu marquei esse horário com você mais pra saber como anda a sua rafaela, porque a minha não anda nada bem.”

e assim começou mais um maior espetáculo da terra, digo, reunião de pais. às 9h da manhã, me foi jogado na cara que minha aluna fofinha, gente boa e bem-humorada é uma farsante. não que eu já não estivesse ciente de que minha bonequinha é pentelha difícil em casa, eu sabia. mas hoje eu soube que a mãe dela sabe que ela sabe que sua primavera mantém residência fixa na escola. em casa, rafaela é um furacão em uma noite de inverno na sibéria.

vamos à casa de rafaela: birra pra escovar os dentes, birra pra comer, birra pra brincar, birra no meio do shopping, birra pra colocar o casaco, birra pra tirar o casaco, birra no meio da noite. sim, dona rafaela acorda de madrugada arrumando encrenca. agora vamos à escola de rafaela: simpatia, generosidade, doçura, bondade, choro que passa em cinco minutos quando entra em conflito com a beatriz e… só. a criatura exala fofura pelos poros.

qual rafaela é a verdadeira, afinal? as duas. rafaela é tudo isso junto. é boa e má, legal e chata, compreensiva e intransigente numa leva só. o que rafaela sabe fazer de melhor nessa vidinha que já dura quase cinco anos? play. the. game. em meia-hora de conversa com sua mãe, eu só confirmei todas as minhas suposições anteriores: trata-se aqui de uma menina inteligentíssima que sabe muito bem o que funciona e o que não funciona com cada uma das pessoas que fazem parte de sua vida.

muito provavelmente, ela cedo aprendeu que se fizer birra pra colocar o casaco na escola, com toda a paciência do mundo eu vou perguntar se ela vai colocar o casaco ou colocar o casaco. ela vai colocar o casaco. muito provavelmente, ela cedo aprendeu que se fizer birra pra colocar o casaco em casa, com toda a paciência do mundo seus pais vão começar uma longa negociação que não deveria nem existir se está frio e chovendo. ela vai, ou não, colocar o casaco. meus sais.

eu queria ter falado umas palavras de incentivo para a patrícia, um pequeno ‘ai, eu sei como é’, ‘sim, tá difícil’, trocar olhares de compreensão e identificação, um high-five serviria. como mentir não estava nos meus planos, eu só consegui discorrer sobre a pessoa maravilhosa que a filha dela sabe ser, numa tentativa talvez meio torta de dizer a ela que é uma ótima mãe.

o jogo da rafaela não é sujo, não. é claro e assumido. a patrícia leu o relatório escrito por mim em voz alta para a filha e perguntou a ela onde estava a rafaela fofa descrita naquelas páginas: sem rodeios, ela respondeu: “essa rafaela tá na escola!”. sim, ela está na escola e de lá parece não querer sair.

por mais que me incomode saber que uma das minhas alunas mais queridas faz de seus pais gato e sapato e independente da dinâmica familiar que coopere para o comportamento difícil ali vigente, sinto uma pontinha de satisfação em reconhecer que, já aos quatro, a criaturinha tem plena noção dos papeis sociais que todos nós representamos.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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