o poeta é um fingidor

em dez meses, só o vi chorar uma única vez: com 39 ºC de febre e uma dor de cabeça que lhe endureceu o semblante sempre tão sorridente e calmo, ele não resistiu à minha terceira investida e, finalmente, deixou uma lágrima rolar pelo rosto e me contar que estava com muita dor de cabeça, efeito da vacina tomada no dia anterior. é um touro. é também pouco afeito ao toque humano: não beija, não abraça, não dá a mão e só se deixa pegar no colo se for para alcançar a bola que diariamente insiste em ficar presa na parte de cima da trave do gol. 

ela, ao contrário, demonstra suas emoções por si e pelas próximas quatro gerações de sua família. nojo? sai correndo desesperadamente. tristeza? pula no meu colo e chora, chora, chora. braveza? grita e bate. medo? pede apoio para o primeiro que aparecer. dor? conta pra mim, pra nossa assistente e para todos os amigos. alegria? comemora como um bixo da medicina. ciúme? um empurrãozinho n@ colega e tudo se resolve. de longe é a pessoa mais guiada pelo emocional que eu conheço.

sou mais do tipo dele do que dela, confesso. finjo e finjo bem. mas dependo de toda a construção adulta de mundo para obter sucesso: dependo de todas as convenções, horários, intensidades de relações, ambientes, elaborações do pensamento. mas, aos quatro, eles têm pouca ideia do que sejam e para que servem todas estas regras de boa convivência que nos impedem de demonstrar alegria, raiva, tristeza, ciúme e dor na hora que as sentimos.

alheios à adultização das coisas humanas, eles se atêm exatamente ao que de mais humano existe: tons de voz, olhares, linguagem corporal, disposição, silêncios. não por acaso, finjo e finjo mal perto deles. como dois radares, não houve palavras, convenções ou ambiente que lhes impediram de, ela, passar o lanche inteiro no meu colo me fazendo carinho e, ele, pela primeira e, muito provavelmente, última vez, segurar na minha mão e irmos buscar uma bola para jogar na hora do parque juntos.

apoiada em uma hora de sono mas mantendo um conveniente sorriso nos lábios, hoje eu precisei que duas crianças de quatro anos me segurassem para deixar calar todas convenções e encarar minha tristeza.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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