shazam

diziam que ele era um inferno. lindo, o petit diable vinha no formato de uma criança gordinha, suecamente branca, de olhos azuis e envolta em uma coroa de cachos dourados: essa era a cara do menino que, se não fosse rico, seria um assíduo frequentador da fundação casa aos três anos de idade.

de fato, as cenas que eu já havia presenciado se localizavam no extremo oposto do idílio johnson&johnson que povoa o imaginário popular sobre a primeira infância: choros e berros incontroláveis, mordidas, cadeiras lançadas pela sala de aula, gritos com a assistente, com a professora, com a coordenadora, com a diretora, com o obama, com darwin. somavam-se a estas cenas, vistas com meus próprios olhos criados à base de gotinhas antroposóficas, pedro bandeira e turminha de amigos do prédio, o último bastião da infância pré-internet, as lendas escolares espalhadas entre os funcionários com cara de espanto e incredulidade, que incluíam até fugas da sala de aula com um ano de idade, e pronto: estava pintado o retrato de uma criança incompreensível para mim.

mas o destino tem seus sarcasmos e, com duas manobrinhas, zerou todos os meus conhecimentos sobre o universo infantil: no fim de 2011, fui promovida de assistente a professora. no início de 2012, descobri que seria professora dele. me lembro com clareza dos olhares de pena e apoio que recebi quando as listas de alunos foram entregues às professoras e eu recebi a da ‘sala do expedito’ [já que estamos falando de causas impossíveis mesmo]. eu, do alto da minha cara de confiança inabalável, aquela que eu visto quando não sei nem por onde começar a lidar com alguma coisa, confiei nas quatro palavrinhas que regem minha existência e minhas ações sobre a terra e prossegui com os meus afazeres: oxalá, vai dar certo.

data de nascimento? março. opa, março. ‘ahá!’, pensei, ‘é pisciano! é um louquinho!’. não, eu não entendo muito de signos. sei que escorpião é treta ‘sangue nas paredes’, leão é insuportável [tese sustentada por dois relacionamentos bastante problemáticos] e piscianos são, bem… eu. nascia ali a minha tese: este menino tinha um mundo ideal criado em sua cabeça e não aguentava que a realidade não correspondesse à sua criação que, é verdade, devia beira a perfeição [modéstia à parte, a minha beira]. a solução: salvá-lo de si mesmo, processo interminável que eu mesma, entre um ou outro fracasso, vinha traçando muito bem aos 24 anos de idade com o inabalável apoio do meu ascendente em áries. o método: oxalá, vai dar certo.

não me lembro ao certo o que aconteceu nas primeiras semanas de aula, só lembro que, passado um mês ou dois, a gente se adorava, eu e o diabinho. astrologicamente, eu o entendia e, salvo alguns episódios de choro por conta de alguns crueis e necessários ‘não’, não havia notícias de gritarias, mordidas, socos ou cadeiras voadoras. ‘e o expedito?’, minha chefe me perguntou. ‘é o menor dos meus problemas’, respondi honestamente. sim, eu tinha problemas muito maiores para lidar do que um piscianinho exigente era capaz de me dar.

passamos 2012 muito bem, obrigada. brincávamos muito, conversávamos mais ainda. ele virou meu braço direito e me ajudava sempre: ‘expedito, fala pra fulana que a gente já vai’, ‘expedito, pega a tinta vermelha ali no armário’, ‘expedito, dá um lápis pra cada amigo’. contrariando as leis da física, eu ainda conseguia carregar aquele projeto de viking em setembro, mês que meus braços se confrontam com a impossibilidade de carregar meus alunos, enormes no 2º semestre, no colo. eu adorava os pais dele e imagino que eles também me adoravam pelo ano de férias de reuniões na escola que eu vinha lhes proporcionando. seu irmão nasceu e, com todos preparados para aguentar uma eventual regressão ao estado de ebulição anterior, o ex-diabo continuou lá, firme, carinhoso, engraçado e sorridente.

minha fama de disciplinadora, conquistada a duras penas como assistente de uma turma de 14 meninos e 2 meninas no ano anterior, alcançou níveis espetaculares: fui elogiada abertamente em reuniões pedagógicas, pelos pais da turma, pelos colegas de trabalho e pela minha mãe que, coitada, passa alguns minutos dos seus dias me ouvindo falar dos meus alunos. eu atribuo a paz de espírito do expedito em 2012 ao seu amadurecimento natural somado a uma dose da empatia que – oxalá, deu certo – nutriu nosso relacionamento ao longo do ano, mas é inútil discutir: sou, aos olhos dos outros e para todos os efeitos, uma espécie de skinner revestida por métodos construtivistas.

e foi assim que, aos 25 anos, eu confirmei uma fama até hoje inabalável mesmo diante de um ou outro insucesso e, aparentemente, algum talento para as ciências ocultas.

 

* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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6 opiniões sobre “shazam

  1. Adoro seus textos! Desse “caldeirão” onde se misturam: poesia, encanto, verdades, ternura e tantas outras coisas boas tem saído muito ensinamento. Parabéns, Júlia. Um bj.

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