reizinhos do camarote

dia sim, dia não, eu me pergunto por que raios eu trabalho – há quase cinco anos – em uma escola de elite que cobra R$3000,00 de mensalidade quando eu poderia muito bem estar dando aula eu um lugar que ~agregasse~ mais valor à sociedade.  cada mimo, cada iPad-no-carro-pra-criança-nem-olhar-pela-janela, cada brinquedo estapafúrdio, cada babá, cada babá-que-vem-quando-a-babá-está-de-folga, enfim, cada sinal do estilo de vida que eu apelidei de ‘free-shop lifestyle’ que aparece, invariavelmente, me dá calafrios.

meus alunos sabem que a moça da limpeza se chama michele e dão bom dia pra ela. ‘economizam’ a michele limpando o que sujam e agradecem fazendo bolsinha de doce de halloween pra ela. carregam suas próprias tralhinhas e colocam o sapato e meia sozinhos [‘nossa, mas tem criança de 4-5 anos que não sabe fazer isso, dona teacher?’ ‘tem, meu chapa!’], põem a mesa, se servem de fruta, tiram a mesa, colocam a pasta na escova e se tornam eternamente responsáveis pela manga da camiseta que não levantaram. sabem onde está cada pincel no armário de materiais e pegam grande parte das coisas que precisam sozinhos. compartilham os brinquedos que trazem ao custo de ter que guardá-los na mochila se não o fizerem.

porque todos eles são reis do camarote em potencial. bem-nascidos, moradores de bairros de classe alta, vestidos em miami e com um poder de compra [e gasto] que pode ir de R$5000,00 até o infinito. são mimados não só por toda essa estrutura como também pelo séquito de pessoas mais bem pagas do que eu para fazer todas as suas vontades, nem que seja almoçar strogonoff com nescau na banheira assistindo galinha pintadinha no iPad. são mimados pelo simples fato de que as palavras ‘papai não tem dinheiro pra comprar isso’ jamais serão ouvidas.

é claro que existem pais bacanas que se preocupam em criar seus filhos de forma mais responsável e pé no chão apesar de toda a grana e estrutura, mas a maioria caiu no conto do ‘não quero ver meu filho sofrer’ ou no do ‘meu filho é especial’ e, mais cedo ou mais tarde, vai arcar com algum tipo de conta daqueles que não se paga com o american express black centurion, além de ter que engolir a besta humana o rei do camarote que criou.

eu não sei se o que eu [e várias outras professoras lá da escola] faço para ter uma turminha mais bacana, pé no chão, capaz de olhar ao seu redor e cuidar de si surta algum efeito fora da escola ou se influenciará algum aspecto de sua vida futura. pelo sim, pelo não, sigo não alimentando seu lado rei do camarote e elogiando quem dá oi para o joão, o moço da manutenção, não quem vem me mostrar o sapatinho da gucci.

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* os nomes das crianças são fictícios e o nome e localização da escola jamais são mencionados neste blog por questões de proteção à intimidade.

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2 opiniões sobre “reizinhos do camarote

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